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21.2.15

"Multiplicar os peixes é poupá-los quando se reproduzem..." - O debute parlamentar de um filho de Estarreja

“Multiplicar os peixes é poupá-los quando se reproduzem…”[1]

Homem desembaraçado, com decisão acercou-se da tribuna a convite do presidente.
Olharam-no curiosos, os restantes cento e vinte e quatro deputados presentes no hemiciclo, preparando-se para escutar as suas primeiras palavras à Nação.
Baixote seria por condição física de génese, mas o momento elevava-o já a um patamar acima do português comum quando, nervoso mas confiante, se dirigia vez primeira à distinta Câmara dos Senhores Deputados.
Convicto monárquico como no futuro demonstrará, regozijou-se por entre os vinte sete absentistas seus pares, militar o odioso republicano Costa.
Pouco passava das quinze horas da tarde desse dia 8 de Junho de 1908 quando o brilho azulado do olhar se lhe redobrou e o coração de grandes causas disparou. Sob o bigode que a moda ditava, fez escutar a sua voz metálica, sem hesitação na forma:
- Senhor Presidente. – disse-o enquanto se virava para trás, num aceno de cabeça respeitoso a Fialho Gomes, continuando sem mais delongas:
- Ao fazer uso pela primeira vez da palavra no Parlamento, proponho-me apresentar algumas considerações acerca de um problema que julgo intimamente relacionado com a economia e altas conveniências do país: a pesca no rio Minho, problema cujo estudo implica deveras com o da pesca em geral, não podendo considera-lo isolado, mas tendo, por conseguinte, de me ocupar também da actual organização dos respectivos serviços.
Tribuna na Câmara de Sessões Parlamentares
Era então sobre assuntos de pesca que o distinto colega se dispunha a discorrer! Logo alguma assistência se desinteressou, outra se quedou à escuta por mera indolência, e a restante – esperamos que o grosso dos presentes – relevou a sua atenção, fosse por espontâneo interesse ou apenas curiosidade interessada!
Afinal o orador granjeara já algum mérito pelo trabalho desenvolvido no seio da muito respeitada Liga Naval Portuguesa. Diria ele, mais à frente no seu discurso, bem a propósito que o dito instituto desenvolvia então, benéfica missão de propaganda no norte do país, em favor das pescarias nacionais:
- À roda da missão estão hoje estabelecidas juntas locais em quase todos os concelhos dessa parte do país, constituídas por pessoas mais em evidência nas suas terras que, por seu turno, se fazem representar nas freguesias ribeirinhas por comissões defensoras das pescarias. – O Homem sabia bem do que falava, pois ele próprio fundara, há pouco mais de três anos, as juntas de Monção e de Vila do Conde, propugnando em conferências e actos similares, a pesca fluvial e o repovoamento dos rios locais. Ficara inclusive a presidir à primeira, por ser grande conhecedor dessa região, onde habitava a Quinta do Hospital na freguesia de Ceivães.[2]
Casa do Hospital, freguesia de Ceivães, concelho de Monção.
Solar minhoto do do século XVII, foi cabeça do morgadio dos Barões do Hospital. Situa-se a cerca de setecentos metros do rio Minho
   Apresentados os objectivos, logo hierarquizou as preocupações que o moviam: humanitárias à cabeça, sociais de permeio, económicas por cúmulo:
- É preciso e é justo que todas as questões que, interessando à nação, vão contender também com a vida e necessidades dos que têm menos recursos, sejam tratadas com toda a solicitude por parte dos poderes públicos. Inegavelmente, a classe piscatória é uma delas, Sr. Presidente. Entrega-se a uma tarefa ingente, difícil e perigosa, concorre dia a dia com risco e sacrifício da própria vida para as subsistências públicas, cria uma grande fonte de riqueza e, empregando tantos braços, auxilia o Estado até na sua árdua missão.
Já então como hoje, o recurso à estatística se tornava frequente e neste caso, o novel orador mostrava bom conhecimento da regra, passando a desfilar alguns números de rendimento geral das pescas, de forma a demonstrar à câmara, não só “a riqueza dos nossos fundos aquáticos”, como também a evidência da deficiente exploração da pesca em águas salobras.
Refira-se a título de curiosidade – por serem relativos – que atendendo aos números revelados, no século compreendido entre 1905 e 2005, os valores globais quase triplicaram, passando dos sessenta e três milhões de euros para cifras na casa dos cento e oitenta milhões de euros![3]
Logo avisou o deputado que as estatísticas eram ainda deficientes, mas urgia dotar quem por elas se responsabilizava, dos meios adequados para as fazer, anexando ao interesse desse correcto proceder, a melhor compreensão e análise da economia do sector em causa. E a quem se atribuía naquele tempo essa tarefa, bem assim como a fiscalização e supervisão? Nas questões do mar, rios limítrofes e cursos de água interiores afectos à jurisdição das autoridades marítimas, à Comissão Central das Pescarias do Ministério da Marinha; já a pesca fluvial, cabia à inoperante Inspecção dos Serviços Aquícolas, organismo do Conselho Superior de Agricultura no Ministério das Obras Públicas.
- Justo é, pois, e urgentíssimo – enfatizou – que a sério e a valer se reorganizem serviços que têm de satisfazer às necessidades de tão importantes riquezas públicas, exploradas por uma tão numerosa e destemida classe, cujos interesses ao Estado cumpre, portanto, atender o mais possível.
Nas pouco concorridas galerias, um pequeno mas robusto velho, concordava em silêncio, orgulhoso da sua “cria” que pusera no mundo há trinta e três anos, e testemunhava como agora a mesma se lançava às “feras” políticas do regímen. Elegante, demonstrativo… eficaz.
Lá em baixo, o único homem de pé, cuja protecção se resumia a uma dezena de finas folhas de papel impecavelmente redigidas, caligrafadas e organizadas, revelava num elogio, os alvos do seu combate próximo:
- À solicitude de S. Ex.as os Srs. Ministros da Marinha e Obras Públicas ofereço a primeira parte das considerações que vou fazer, tendo a certeza de que os ilustres estadistas com a sua louvável iniciativa e reconhecido zelo, de comum acordo, se vão ocupar do momentoso assunto.
Augusto de Castilho, Ministro da Marinha
Os independentes Castilho e Calvet de Magalhães eram assim os visados, ambos com pouco mais de quatro meses em funções![4]
Evocando o seu humilde modo de pensar, e deixando de lado rasgos de erudição a despropósito, logo o orador se iniciou nas devidas considerações, que mais não foram do que um resumo histórico das preocupações portuguesas acerca da preservação e conservação dos fundos aquáticos em território nacional. Lembrou tempos anteriores à Fundação, citou Cortes de quatrocentos e Leis de quinhentos, para enfim se centrar no zoólogo Barbosa du Bocage e na comissão a que presidiu com o duplo objectivo de regular o convénio ibérico, assinado em 1878 visando a reciprocidade da pesca entre Portugal e Espanha, e a proposição de medidas convenientes ao progresso da sua indústria.
- Foi esta, Sr. Presidente – informou, dirigindo de novo o olhar a Fialho Gomes – a comissão progenitora da actual Comissão Central de Pescarias.
No momento, aquele ciciava algumas palavras ao secretário Mota Veiga que o assessorava à mão direita. Interrompeu e meneou a cabeça, mostrando que assim mesmo, estava atento.
Confiante, o ilustre Conde – que esse era o título com que o falecido rei D. Carlos o distinguira, nem três anos se passavam[5] - prosseguiu o discurso pela análise que uma década mais tarde, a Sociedade de Geografia produziu acerca do estado das pescarias nacionais, relevando três conclusões que apontavam para a necessidade da criação de um organismo capaz de superintender, estudar, regulamentar e avaliar estatisticamente, a pesca e piscicultura marítimas e fluviais, capaz de promover a repovoação dos rios interiores e também capaz de organizar um eficaz policiamento das pescas.
Galerias na Câmara de Sessões Parlamentares
             Redigiram-se leis notáveis desde então – opinava o tribuno – mas a prática deixava ainda muito por fazer: careciam as disposições sobre o fomento piscícola artificial; escasseava a fiscalização e vigilância nas gigantescas circunscrições hidráulicas, inviabilizando o seu repovoamento por manifesto incumprimento dos regulamentos; ficaram esquecidos os idos decretos de 1893 e 1901 que prometiam escolas de pescadores nas populações da beira-mar e de piscicultura prática nas estações aquícolas.
- O Estado ficou em meio na sua obra. – criticou, não se esquivando à antevisão do porvir. – Concluído esse trabalho, verá o estado como a indústria se formará e como ela, na sua evolução futura, há de dispensar encargos que, no princípio, é inteiramente justo que o Governo chame a si, pois trata-se das riquezas públicas e a ele compete fomentá-las e desenvolvê-las.
Então sugeriu a centralização de todos aqueles serviços, magna reforma de que incumbiu os ditos ministros, justificando-a como o correcto modo de assegurar “a vida e o futuro próspero de uma indústria essencial, como a aquicultura, para a nossa alimentação pública”. Classificou tal acção como “obra verdadeiramente patriótica”, e enquanto se não fizesse solucionou o futuro próximo, através da divisão dos rios interiores em “zonas proporcionadas e capazes de ser vigiadas por um ou mais guardas consignados apenas a essa tarefa de vigilância”. A carestia ao Tesouro não seria exaustiva nem improdutiva, asseverou, demonstrando que o controlo do vandalismo viabilizaria as acções de repovoamento artificial dos rios. Bem informados e instruídos, os mesmos vigilantes forneceriam elementos essenciais para a melhoria substancial da ciência estatística, potencializando “o estudo económico desta importante riqueza pública”.
Finalmente, o distinto orador terminava as suas considerações gerais, lembrando que a Liga Naval a que pertencia, conseguira estimular a opinião pública para a importância do assunto de que se tratava, cativando a atenção das populações ribeirinhas, sem as quais, lembrou, “nunca o Estado de per si, poderia resolver”. Para mais, já então como hoje, o Governo criara organismos exigidos por lei, sem qualquer aplicação prática, tornando-se “inutilidades dispendiosas que se não pode admitir”. Era pois a altura ideal para enfrentar com seriedade a questão!
Entre muitos aplausos e algum burburinho menos concordante, o octogenário, das galerias sorria, como quem bem conhecia aquele mundo político que aliás, abandonara há oito anos, na legislatura de 1900. Agora usava da palavra o seu digno sucessor!
Na segunda parte do seu discurso, falaria do rio Minho porque, diga-se em abono da verdade, se para aquela distinta casa fora eleito, ao Círculo de Viana do Castelo o devia, se bem que o seu berço fosse no litoral mais a sul, terra que também lembrou na tribuna, pedindo com urgência ao Sr. Ministro da Marinha, a elaboração de novo regulamento local para as pescas, aproveitamento e conservação do seu “manancial aquático”. Nascido na vila de Estarreja, referia-se, evidentemente, à ria de Aveiro.
Aveiro, a "Veneza Portuguesa"
       E todo o hemiciclo pôde ouvir o gosto com que o bacharel Azevedo e Bourbon – que esse era o grau académico que obtivera com brilhantismo no curso de Direito em Coimbra, e esses apelidos que mais usava – recordou a terra que o viu nascer:
- Tive a ventura de nascer nessa formosíssima região, beneficiada na sua alimentação, na sua agricultura, na sua indústria e até nos seus encantos naturais pela ria, que, pelo capricho dos seus canais, não só fez de Aveiro a “Veneza Portuguesa”, mas também criou, entre a cidade e alguns concelhos vizinhos fáceis vias de comunicação, serpenteando por entre ilhas, dedicadas à cultura, a pastagens ou a marinhas de sal, constantemente sulcadas pelos característicos barcos regionais, tornando a paisagem de uma beleza inconfundível no nosso país – e nas galerias, comoveu-se o ancião, tantos anos autarca de Estarreja, associando-se ao elogio.
Prosseguiu então o discurso, após breve pausa convenientemente dedicada ao humedecimento de lábios e cordas vocais:
- A pesca no Rio Minho, Sr. Presidente, é inegavelmente a maior riqueza fluvial no nosso país – disse-o convictamente e sem assombro o deputado. Voltou a socorrer-se das cifras para o sustentar, e por elas ficamos hoje , cem anos depois, a conhecer que então, trabalhavam na pesca nos concelhos marginais ao Minho, desde a foz até Valença, 918 pessoas em 459 embarcações, obtendo-se um rendimento geral actualizado de cerca de trezentos e sessenta mil euros[6].
Informou ainda o Conde de Azevedo – que esse era o nome porque era conhecido entre os seus pares parlamentares – de que formas se fazia a pesca no dito rio: embarcações do estuário até Monção; pesqueiras e caneiros desde ali a São Gregório, na fronteira com a Galiza.
Aspecto das pesqueiras no rio Minho
     Não existindo números credíveis de qualquer organismo oficial, e conhecendo bem o terreno por ali ser residente, prontificou-se o orador a apresentar à câmara, estimativas aproximadas que ilustrassem a situação a montante da vila de Monção. Explicou-se e concluiu que seiscentas pessoas se dedicassem à manutenção das referidas artes de pesca (as quais avaliou em oitenta mil euros[7], estando operacionais cerca de três centenas), estimando um rendimento próximo dos cento e noventa mil euros[8]. Assim, trabalhariam no princípio do século XX no rio Minho, pouco mais de mil e quinhentas pessoas, produzindo uma riqueza aproximada de meio milhão de euros, e manejando aparelhagem e embarcações que orçavam duzentos e vinte e cinco mil euros. Notável e revelador da “inegável importância das riquezas aquáticas do Minho, o que torna esta pesca valioso auxílio para a vida difícil das populações ribeirinhas, sujeitas às crises de toda a ordem que afectam o nosso lavrador, empregando e dando recursos numa parte do ano a perto de duas mil pessoas, subsidiando a alimentação local do pobre e do rico e tornando possível uma exportação que é produtiva".
Nas palavras com que continuou a alocução, abordou exaustivamente o historial da regulamentação da pesca naquele curso de água e, se anteriormente evocara o seu humilde conhecimento das pescarias para não fazer “estendal de erudição”, agora mostrava-se bem mais à vontade, ou não tivesse sido a sua formação… em Leis!
Desde o primeiro convénio entre Portugal e Espanha, em 1878, passando por projectos de regulamentos, regulamentos e portarias, se chegara por fim a um texto regimental sobre a pesca, válido em toda a internacionalidade do rio Minho, publicado no nosso país a 17 de Maio de 1897, e dois dias mais tarde no país vizinho.
Mas… - enfatizou o orador – posto em execução, começaram logo a sentir-se as dificuldades de o fazer cumprir. Insurgiram-se pescadores, contra a malha das redes e a época de pesca decretadas, protestaram as edilidades e, por fim, até as juntas da Liga Naval Portuguesa! Os relatórios do porto de Caminha apelavam a modificações ao regulamento, no que eram prontamente seguidos pelas autoridades marítimas galegas; no entanto… sendo o rio internacional, só a comissão luso-espanhola, promotora do regulamento – por sorte então ainda não dissolvida – podia pronunciar-se acerca do que se reclamava! Alterou-se tão só o número sete, do artigo único do capítulo dois… de comum acordo entre os dois governos ibéricos!
Desde então, - continuou o Conde de Azevedo visando novamente o titular da pasta da Marinha – representações e relatórios têm sido remetidos para o Ministério dos Estrangeiros, onde esperam a iniciativa de negociações com o Governo Espanhol que neste momento venho solicitar ao ilustre titular dessa pasta.
Sr. Presidente – de novo enfrentou Fialho Gomes, passando logo a falar bem alto para toda a câmara, não evitando uma certa ironia na forma – reduz-se o começo da solução deste problema a uma coisa simples e singela: entabular negociações com a Espanha para ser reconstituída a citada comissão internacional, ou nomeada outra e convocada imediatamente para principiar os seus trabalhos.
Nas galerias, o decano regalava-se, deliciado pelo atrevimento. Já ele, se não exporia a tanto!
Embalado pelos incentivantes aplausos que se fizeram ouvir no hemiciclo parlamentar, Pedro de Azevedo e Bourbon reforçou ainda a pouca eficácia da referida lei de então, demonstrando que durante a década já decorrida desde a sua aplicação, o salmão praticamente desaparecera do rio Minho. Ora “parece que o reaparecimento e abundância desta espécie se deveria acentuar progressivamente cada ano”. Pois verificava-se o contrário – fez notar, logo levantando uma questão:
- Na verdade o salmão é em menor número ou, quando o regulamento permite a sua pesca, já ele se terá internado além da zona limítrofe do rio?
À pergunta que ficou no ar, logo seguiu o alerta das consciências. Era necessário, naquele caso específico, sabiamente escolhido para modelo de intenções do orador, estudar e conhecer os hábitos do salmão do Minho; quando sobe o rio e em que estado de desenvolvimento, quando e onde desova, se na parte internacional se a montante, na Galiza e, como ideal, referenciar com precisão esses locais.
Por isso, a primeira sugestão do orador prendeu-se com a existência, na futura comissão que ele esperava brevemente criada, de um vogal naturalista, para que as conclusões a extrair no final do trabalho incidissem, não apenas na fiscalização e polícia de pesca, mas igualmente no fomento e repovoamento artificial, não esquecendo o estudo e conservação dos afluentes de ambas as margens, aumentando assim a zona de acção para a desova dos peixes migradores.
A segunda sugestão, passava pela consideração normativa de toda a bacia hidrográfica do rio, uma vez que – conforme ressaltou – a zona internacional é a quarta parte do curso total do rio.
Finalmente, como última sugestão à futura comissão, explanou a ideia de que se fizessem as alterações necessárias ao regulamento de então, considerando as espécies sedentárias, o sável e a lampreia, e para o caso particular da pesca e repovoamento do salmão fosse elaborado um estatuto individualizado, pois “o saborosíssimo peixe tende a desaparecer do Minho, se não acudirmos solícitos até com o seu estudo científico para lhe surpreendermos o viver e os costumes que, como é sabido, se modificam com a latitude e, portanto, com a temperatura das águas que frequenta”.
Wenceslau de Lima, Ministro dos Estrangeiros
E então como hoje, não faltou o exemplo estrangeiro como meio de mobilização das vontades nacionais. O deputado não deixou de referir o caso do salmão do Reno, sujeito a uma convenção entre Alemanha, Suíça e Holanda, e do Meuse, entre a Bélgica, Holanda e França. “Estes tratados devem servir-nos de modelo e ensinamento para fazermos o que é preciso no rio Minho”.
Consciente do factor internacional da questão, o progressista Conde de Azevedo não deixou de concluir o seu primeiro discurso na Câmara dos Senhores Deputados da Nação, dirigindo-se ao Ministro dos Negócios Estrangeiros, o regenerador Wenceslau de Lima, lembrando-lhe a receptividade garantida do governo de Madrid, sujeito a reclamações similares dos povos galegos da margem direita do rio, e a necessidade de honrar as palavras do rei D. Manuel II, no Discurso da Coroa, quando prometeu à classe piscatória, protecção para a sua indústria.
- Assim o fará o ilustre Ministro, estou certo disso, e portanto em nome dos povos interessados desde já agradeço a S. Exa. As suas prontas providências.
Tenho dito.
Aplaudido, o deputado retirou-se assumindo o seu lugar no hemiciclo. Na galeria, o ex-deputado e presidente da câmara de Estarreja, Francisco Barbosa, ergueu não sem algum custo os seus quase oitenta e um anos e, visivelmente satisfeito desceu as escadas, encaminhando-se aos “passos perdidos”[9] para rever velhos conhecidos. O testemunho estava passado.
Sala dos Passos Perdidos
       Desconheço o percurso que levou a questão das pescas no rio Minho. Sei que existiu um regulamento de 1967 e outro de 1981. Confesso que pouco ou nada estou informado tecnicamente sobre o assunto mas, por curiosidade, consultei o texto do regulamento actual[10], datado de Abril de 2008. Oito artigos regulam o exercício da pesca, três as artes de pesca e a sua utilização, outros tantos as épocas de pesca, defeso e dimensões a respeitar, quatro os lanços, nove as pesqueiras, oito o policiamento do rio e nove as sanções e coimas a aplicar.
Finalmente, através de cinco disposições finais, passa a conhecer-se a organização actual de todo este enredo: cem anos depois, caiu em saco roto a sugestão do ilustre orador ao pedir normativas para toda a extensão do rio; o regulamento actual continua aplicável apenas ao troço internacional do Minho. O organismo regulador sob a forma de comissão, é de carácter permanente e reúne pelo menos uma vez por ano, em maio, representantes de ambos os países no âmbito dos Negócios Estrangeiros, Defesa, Obras Públicas, Agricultura, Pescas e Ambiente. Note-se como ainda hoje, os principais objectos do regimento se situam no fim da lista de prioridades! Preside o lado português o capitão do porto de Caminha, e o lado espanhol o comandante naval do Minho.
Do Decreto de 1981[11], perdeu-se a obrigatoriedade da existência de dois técnicos em hidrobiologia, pelos quais, como vimos, lutou o ilustre estarrejense e que agora poderão participar “sempre que se considere conveniente”.
O objectivo, na íntegra, parece no entanto cumprir os desejos manifestados no discurso de 1908: “A Comissão Permanente terá por finalidade principal o estudo e a apresentação de propostas tendentes a melhorar as condições biopesqueiras do rio Minho”.
         Assim seja, para sossego do notável e já finado deputado.


Créditos fotográficos: Todas as imagens referentes ao parlamento, ministros, rio Minho e Aveiro foram retiradas da Internet; vista aérea da Casa do Hospital foi retirada do blog “Solar do Hospital”; Conde de Azevedo em 1906 e um seu postal autógrafo de 1908 com imagem da Casa do Hospital pertencem à colecção do autor.

*Este artigo foi publicado em "Terras de Antuã. Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja", Nº 4 - Ano 4 - 2010       


[1] “A melhor maneira de multiplicar os peixes é poupando-os na ocasião em que se reproduzem”. Citação atribuída ao filósofo francês do século XIX, Jules Michelet, e utilizada na alocução ao Parlamento aqui recordada, e que pode ser consultada na íntegra em http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=mc.cd
[2] ZUQUETE, Afonso Eduardo Martins (coord.), Nobreza de Portugal e do Brasil, Lisboa, edições Zairos, 3ª edição, 2000, Volume II, pp. 362-363.
[3] VASCONCELOS, Pedro, O “real” valor do “dinheiro” – 850 anos de história de inflação em Portugal, Sacavém, Districultural, 1999, pp. 11, 24, 26, 63. O valor apresentado no discurso para o rendimento geral da pesca em 1905 foi de 4.333:904$240 réis. Em 2005, segundo os dados apresentados pelo INE, o rendimento empresarial líquido do ramo da pesca era cerca de 180.000.000€. A conversão apresentada para o valor em réis baseou-se na fórmula de cálculo explanada pelo Arq. Pedro Vasconcelos na obra mencionada.
[4] O primeiro governo após a aclamação de D. Manuel II foi constituído nos dias seguintes ao Regicídio, entrando em funções no dia 5 de Fevereiro de 1908. Era chefiado pelo independente Joaquim Ferreira do Amaral que acumulava as pastas da Presidência e do Reino, equilibrava-se entre os regeneradores Artur de Campos Henriques (Justiça) e Wenceslau de Lima (Estrangeiros), os progressistas Manuel Afonso Espregueira (Fazenda) e Sebastião de Sousa Telles (Guerra), e os independentes Augusto de Castilho (Marinha e Ultramar) e João Calvet de Magalhães (Obras Públicas).
[5] Decreto de 14 de Julho de 1905.
[6] 24:789$175 réis. Veja-se nota 3.
[7] 5:580$000 réis. Veja-se nota 3.
[8] 12:000$000 réis. Veja-se nota 3. Neste caso, o orador baseou-se em dados estatísticos recolhidos anos antes, em 1885-86, publicados por Baldaque e Silva na sua obra “Estado actual das pescas em Portugal”. Para o cálculo do valor actual, utilizou-se um factor de desvalorização da moeda referente não a 1905, mas a 1885.
[9] A “Sala dos Passos Perdidos”, adjacente à “Sala das Sessões Parlamentares”, é o grande centro de encontro entre deputados, membros do governo e jornalistas.
[10] O texto do Decreto-Lei nº 8/2008, de 9de Abril, pode consultar-se em: http://dre.pt/pdf1sdip/2008/04/07000/0214002152.pdf
[11] O texto completo do Decreto-Lei 316/81 de 26 de Novembro pode consultar-se em: http://www.afn.min-agricultura.pt/portal/pesca/resource/Ficheiros/Regulam-Pesca-Rio-Minho.pdf

3.10.14

Divagações a propósito de um velho retrato - Rostos da Fontinha( III )

Quase meio século volvido, preparavam-se os tempos para a entrada da nova centúria. Gozavam já o descanso eterno na sua capela da Conceição, Antónia e Victoriano[1], sendo sucessivamente herdeiros, os filhos Caetano[2] e Agostinho[3]. Sabe-se que este último, em 1800, era enfiteuta das casas do Terreiro de Santo António, onde os religiosos da família Marques do Couto sempre tinham vivido, na cidade de Braga. Tinham vivido, e ainda o faziam, uma vez que também o cónego Salvador Marques do Couto, sentindo chegar o dia do Juízo[4], renunciara o seu canonicato da Sé no sobrinho Bernardo[5], filho de sua irmã Maria e do licenciado Manuel Marques Fontinha, “um dos bons letrados do seu tempo”, segundo rezam as crónicas familiares. Por certo, também Salvador conseguira cargos no desembargo eclesiástico dessa Mitra onde era tão conceituado, para Joaquim[6] e Pedro José[7], irmãos do novo Cónego. Desse modo, no dealbar do século XIX, quando o cónego Bernardo Marques do Couto comprou[8] o Prazo das casas de Sto. António ao Cavaleiro de Cristo seu parente, ali viviam há já alguns anos, seus dois irmãos desembargadores, e ele próprio.
Casa da Fontinha, na freguesia de Santiago de Beduído, em Estarreja

Solar da família Barbosa do Couto desde 1867, ano em que coube por herança a Luís Marques Fontinha "o Velho", até meados dos anos 30 do século XX. O corpo da esquerda é mais antigo, sendo a restante obra do século XIX, que veio a ser destruída pelo fogo no ano de 1985
Eram fortes nesse tempo, os laços familiares estabelecidos entre os vários ramos dos Marques do Couto, e entre a família e a Sé de Braga. O irmão mais velho destes eclesiásticos, era afilhado do já falecido Vigário-Geral. Por isso se chamou Agostinho, precedendo o Luís que lhe cabia na alternância genealógica dos primogénitos da Fontinha, entre Manueis e Luíses. Ao tempo do baptizado[9], a que o padrinho não pudera assistir pelos seus múltiplos compromissos, fora aquele representado pelo cunhado Victoriano, futuro tio de D. Frei Caetano Brandão[10], que era nesta transição de século, o Arcebispo em título. O casamento[11] de Agostinho Luís com uma nobre senhora de Ovar, em 1792, não lhe trouxe o desembargo da relação eclesiástica, para que se preparara ao formar-se bacharel em Leis na Universidade de Coimbra. Por isso, não acompanhou a carreira dos irmãos, antes sucedendo na Casa da Fontinha, em S. Tiago de Beduído, que fora de seus pais e avós. Germinou bem a semente daquele casal, fazendo brotar no lugar da Fontinha cinco bravos rapazes, entre Setembro de 1793 e Abril de 1800. A todos, apadrinharam o baptismo os tios de Braga, com excepção do mais novo “que se ficou” pelo tio Luís[12], clérigo na vizinha Pardilhó. Coube por padrinho ao Manuel, o mais velho, o cónego Salvador, representado pelo cónego Bernardo; a Pedro, como já se viu no correr destas linhas, ficou por padrinho o reverendo Desembargador Pedro José, representado por seu irmão Joaquim José, também ilustre titular de cargo semelhante na Relação Eclesiástica de Braga, o qual se investiria de pleno nessa responsabilidade, dois anos mais tarde, perante o pequeno Joaquim Calixto; finalmente, ao Francisco[13], apadrinhou o mesmo Bernardo José Marques do Couto, vindo inclusive em 1820, a renunciar o canonicato da família de que era titular, neste seu sobrinho e afilhado. Tornou-se assim o cónego Francisco, o primeiro dos Barbosa do Couto residentes na Fontinha do Paço, em Estarreja, a trocar aquelas paragens pela vida metropolitana da cidade arcebispal.
Desagrilhoemos Chronus, deixando-o de novo à solta naquele estúdio fotográfico. Oito demorados segundos de imobilidade podem já contar os presentes, Benedicta incluída, ela que puxou a si a educação e o amor aos sete sobrinhitos[14], tão precocemente órfãos de mãe. Guardava no peito um enorme coração, todo devotado à família, e uma bondade sem limites que a sua timidez e abnegação não deixavam transparecer. Seria talvez arredia, diziam, mas só quem de perto a conhecia, podia apreciar toda a sua dimensão humana. Saudades dos ausentes, é o que lhe ia agora na alma. O retrato, não vai nunca ficar completo; falta o Pai, a sofrida Mena[15], e o mano Zé Luís[16] a quem, chorosa, vira partir para o Brasil atingida a maioridade, tinha ela doze anos! Nunca mais estivera com ele, mas as cartas que esporadicamente começavam a chegar desde aquelas remotas paragens, faziam-no casado[17] e com filhos, fazendeiro e grande cultivador de café em Porto de Lameiro, arredores da cidade de Campos, na província do Rio de Janeiro. Falta também a geniosa tia Mónica[18], que cuidara dela e do Francisco quando, de pequenos, tinham ido morar para Estarreja… E o irascível tio Cónego, mas que para ela sempre fora tão afável!... E o simpático tio Calixto, com quem convivera mais de perto pois nunca deixara a Fontinha… A todos Benedicta recorda.
Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior

Baixo, tipo claro e olhos azuis, sendo aparentemente um pouco brusco, tinha um excelente coração e era estimadíssimo por todos os que com ele conviviam. Em 1917, com noventa anos, estava hospedado em casa do irmão Agostinho, quando se deu a revolução que colocou no poder o Dr. Sidónio Pais. Não obstante o perigo que oferecia estar à janela durante o chamado "combate do Rato", meu Tio não queria perder o espectáculo. Lembro-me bem que tendo-lhe eu falado um pouco asperamente para o convencer a meter-se para dentro, levei uma solene descompustura, dizendo que nunca havia tido medo.

(Texto extraído das notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, a quem pertence igualmente a autoria do registo fotográfico, feito precisamente nesse dia)
Cabe finalmente ao “Senhor Francisquinho”, o nono segundo desta arrastada impressão fotográfica. Assim se lhe dirigiam as gentes humildes com quem convivia, e a quem nunca negava ajuda ou atenção, recebendo em troca, gratidão e respeito “de se lhe tirar o chapéu”[19]. Na política, era o líder incontestado dos Progressistas de Estarreja, já tivera honras de Deputado, e decerto voltaria ao Parlamento[20]. Naquela câmara, congratulava-se no convívio com homens da estatura de Guerra Junqueiro, Hintze Ribeiro, Egas Moniz, o Conde de Sabugosa, Luciano Cordeiro, Casal Ribeiro, e até o republicano e futuro chefe do governo, Afonso Costa, entre muitos outros. Mas a intimidade daquele momento de exposição da alma, elevou-a, reconhecido, à sua finada esposa, àquela que desinteressadamente lhe dera a sua vida, o realizara na paternidade, e com quem partilhara quinze anos de muitas alegrias e, inevitavelmente, algumas infelicidades também. A maior destas, sentiu-a na Fontinha, naquele vinte de Janeiro, enquanto ansioso, esperava na sala o entrecortado choro do inocente que deveria nascer para um novo mundo, e se chocou com os rostos fechados, de um silêncio pesaroso, que a medo lhe falavam da inesperada má sorte de Maria Cândida[21].
Hirto, de olhos postos além do vazio, Francisco Barbosa lembra com saudade, as vésperas do dia concertado para o matrimónio. Vivia a família em luto recente pelo “tio Cónego”. Acompanhado de Maria Benedicta e do Agostinho Luís, tomara o trem na estação de Estarreja, percorrendo a metade da viagem que os levou até Gaia. A travessia do Douro fazia-se então apenas de barco, e assim, pela hora do almoço, pisavam os três irmãos, com criados e bagagem, o solo firme da Ribeira, onde logo contrataram a carruagem que os levaria ao destino. Coube ao fiel José - que crescera na Fontinha e com quem brincaram desde crianças –, a tarefa de negociar os serviços do almocreve para o transporte da criadagem e das pesadas malas. Tudo tratado, estômago confortado na medida do possível, enfrentou o grupo, devidamente estratificado, o sinuoso caminho, vencendo os restantes sessenta quilómetros que os separavam de Braga. Caía já a noite, quando desembocaram no Terreiro de Santo António, e José fez soar a aldraba do número 12. Os pais Mariana e Pedro, encabeçavam o saudoso grupo que os esperava, de olhos marejados pela ausência. Saciadas as saudades, logo se acertou a visita ao próximo Campo de Santiago, à casa dos Falcões Cota, onde vivia a noiva escolhida para o primogénito[22]. Então, curioso e inibido – recorda Francisco -, finalmente conheceu Maria Cândida, com quem esperava passar o resto dos seus dias. Concertaram esse enlace, a amizade e as convicções políticas partilhadas entre os Barbosa do Couto (pai e tio), e o Visconde de Azevedo; o bom nome, o carácter e a capacidade gestora do senhor da Fontinha, tornara-o igualmente possível e desejável. Para aquele titular, já velho e sem filhos, Francisco Barbosa era o garante de um digno futuro para a nobre e opulenta Casa que representava. Morreu cinco anos mais tarde, legando em testamento à sobrinha Maria Cândida um vasto património, do qual se destacava a antiquíssima Torre de Azevedo, solar da família há vinte seis gerações!
Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Sabia o que devia ao seu lugar pessoal e político, mas monárquico conservador convicto, católico, desejava que o país fosse governado pelas suas grandes e tradicionais instituições, e informada a sociedade portuguesa na moral cristã e nos princípios da religião católica.


(Adaptação de um trecho do seu discurso parlamentar enquanto Senador Monárquico pelo Minho, no tempo de Sidónio Pais)

Era especialmente interessado e informado em assuntos de Agricultura e Pescas, dedicando muito do seu tempo à literatura, às artes e ciências, sendo possuidor de vasta biblioteca. Sucessor de seu pai, foi o último dos Barbosa do Couto a herdar o solar da Fontinha, onde nasceu a 8 de Abril de 1875, e o responsável pela sua alienação em consequência do desastre financeiro a que levou a sua opulenta Casa.
Dez segundos… e no ar saturado da pequena sala, dissimula-se já alguma impaciência. Ainda se faz tempo, contudo, para que presente e futuro próximos, ocupem de um tiro, os pensamentos do ex-deputado, tão composto entre suas respeitáveis mãe e irmã. Sua Excelência o Dr. José Luciano de Castro, seu grande amigo e condiscípulo enquanto líder político dos Progressistas, não lhe dera apenas a notícia que tanto alegrara Rita e Henriqueta. “Á voil de l’oiseau”, e antecedendo um texto mais oficial, falara-lhe também na sua possível elevação a Conde[23], que o Partido e ele próprio veriam com muito bons olhos. Surpreso, Francisco Barbosa prometera-lhe resposta. Sinceramente, não se revia nessa posição, pois além de não ser dado a tais “honrarias”, o seu bom senso e sentido de justiça, segredavam-lhe que não lhe cabia por direito, representar o tio da falecida esposa Maria Cândida. Só o desejo de não magoar tão respeitável amigo, fazia oscilar esta vontade. “Foge cão que te fazem barão…”; meio século não apagara os tempos de Saldanha, e sempre actual continuava o motejo! Talvez um dia, Pedro[24] o mereça… Deixá-lo crescer!
Ao hipotético condado, logo se substituiu imponente silhueta: uma Câmara para Estarreja[25]; um imóvel dinamizador, capaz de se tornar próspero marco do progresso que sonha imprimir à sua terra. Um edifício que há-de empregar muitos braços locais, albergando úteis serviços à comunidade, e que será património de todos. E prosseguiriam as suas lucubrações futurísticas, se naquele momento, nesse preciso instante em que assomava o décimo primeiro segundo… não surgisse sob o feltro negro, por detrás do tripé de castanho, o fotógrafo, recompondo a esguia figura:
– Perfeito, ficou esplêndido, e sem repetições! – entusiasmou-se o retratista, logo acrescentando, em respeitosa calmaria – Queiram ficar à vontade. A chapa está pronta!
Então pôde suspirar o grupo, finalmente aliviado. Espirituosa, Mariana gracejou enquanto se erguia, apoiada na mão que Ritinha lhe estendera:
– Daqui a cento e vinte anos ainda estaremos todos juntos nesse cartão! O pior é que então, já ninguém saberá destas relíquias…
Não sabia a vetusta Avó como era sábia… mas quanto se enganava também!
Quando regressaram a casa, receberam-nos, alegres e curiosas, sete crianças irrequietas: Mariana, de quinze anos, e Amália, com nove, lideravam o grupo, elas que viriam anos mais tarde a oferecer ao Pai, bordada a ouro, a bandeira que inaugurou os Paços do Concelho com que aquele sonhava ainda; seguiam-nas a Maria José, de treze anos, e a Bibita, que ainda não fizera os oito, trazendo a mais velha ao colo, a pequena Emília, com quase cinco. Por fim chegaram os rapazes, o Pedro e o Francisco, de doze e onze anos respectivamente, que vinham melados de subir à Figueira mais carregada do jardim, não dispensando um malicioso encontrão, que provocou gritinhos desagradados nas irmãs. Se o primeiro viria um dia a ser o chefe da família, já ao segundo esperava-o vida curta, ceifada precocemente por uma tuberculose fatal[26].

D. Mariana de Jesus Barbosa Falcão de Azevedo Sottomayor e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 7 de Junho de 1872

D. Maria José de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 4 de Janeiro de 1874
Os rostos mais novos da Fontinha, eram também os últimos a nascer naquela Casa, a viver e crescer em Estarreja. Senão vejamos:
Maria José casou a 9 de Novembro de 1893, com José Maria de Abreu Freire, futuro Visconde de Baçar, Bacharel em Direito e senhor da Casa do Outeiro, em Avanca, onde viveram e tiveram quatro filhos.
Mariana casou a 1 de Julho de 1900, na capela do Solar de Azevedo, com seu primo direito Francisco Manuel Pinheiro de Azevedo e Menezes, Engenheiro Civil, senhor das Casas de Vinhal em Famalicão, e dos Pinheiros de Barcelos. Viveram no Porto, onde lhes nasceram oito filhos.
D. Maria Amália Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 25 de Março de 1878
D. Maria Benedicta (Bibita) de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 9 de Agosto de 1879
Amália casou em Estarreja, a 5 de Agosto de 1901, com seu primo direito António de Sá Barreto Pereira do Couto Brandão, Bacharel em Direito e Notário naquela vila, cuja carreira o levou à Magistratura e ao Desembargo da Relação do Porto e de Coimbra. Tiveram apenas uma filha, em 1905, tendo Maria Amália falecido três anos mais tarde, tuberculosa.
Bibita, ou melhor dizendo, Maria Benedicta, casou também em Estarreja, a 21 de Novembro do mesmo ano, com João de Sande Mexia Salema Aires de Campos, então Visconde do Ameal, e futuro Conde do mesmo título, formado em Letras, que viria a abraçar a carreira diplomática, e a tornar-se Deputado da Nação. Sempre viveram na Quinta de Santo António, no Ameal, e em Coimbra, onde lhes nasceu um filho.
D. Maria Emília da Natividade de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 8 de Setembro de 1882

Emília casou a 24 de Julho de 1905, com Augusto Sampaio de Castro Corte-Real – sobrinho de José Luciano de Castro -, Bacharel em Direito e então ilustre Advogado em Lisboa, onde viveram e lhes nasceram duas filhas. Augusto de Castro, que foi Jornalista e Escritor qualificado, ingressou depois na diplomacia, vivendo a família em Londres, Roma, Bruxelas e Paris, só regressando definitivamente a Lisboa em finais dos anos quarenta.
Finalmente o Pedro, futuro 2º Conde de Azevedo, que se formou em Direito na Universidade de Coimbra, e nesse mesmo ano, a 4 de Novembro de 1897, casou na Igreja de Carapeços, com D. Maria da Purificação Briolanja de Queirós e Vasconcelos Carneiro Pereira Coutinho de Vilhena, herdeira da vasta Casa dos Barões do Hospital. Viveram entre Barcelos, Vila do Conde e Monção, nascendo-lhes seis filhos. Rodou inversa a roda da fortuna para o sucessor de Francisco Barbosa, perdendo todo o património que fora dos seus maiores. Viúvo, casou uma segunda vez, e passou ao Ultramar, como Director da Companhia de Moçambique, de onde voltou em 1945.
Depois da morte de Francisco Barbosa, a Casa da Fontinha ficou vazia. Ninguém mais ali parou. Consumiu-a o tempo e o fogo. Do alto dos seus oitenta e um anos, a “velha” Mariana tivera razão na bem humorada glosa. Cento e vinte anos depois, destas gentes de Beduído, sobrou o retrato para contar uma história.
Obrigado Joseph Nièpce[27].


Fontes documentais:
Habilitação para a Ordem de Cristo de Agostinho Marques Pereira do Couto, Letra A, Maço 10, Diligência 6, Torre do Tombo, 1758.
Inquirição de Génere para cónego de Salvador Marques do Couto, 1736.
Prazos do Cabido, Livro 117, Arquivo Distrital de Braga, 1798-1802.
Registos Paroquiais, Pardilhó, Estarreja.
Registos Paroquiais, S. Mamede, Lisboa.
Registos Paroquiais, S. Paio de Parada de Tibães, Braga.
Registos Paroquiais, S. Tiago de Beduído, Estarreja.
Testamento de D. Rita de Cassia Barbosa de Sottomayor.

Fontes manuscritas:
SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Notas de família, Manuscrito.
SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, Livro manuscrito de apontamentos genealógicos.
SOTTOMAYOR, António Fernando de Sequeira Barbosa, Notas da família, Manuscrito em vários volumes.

Fontes impressas:
A Nação, Órgão do Partido Legitimista, 1 de Dezembro de 1885, 10 de Dezembro de 1885.
Boletim Salesiano, Vol. VI, Nº 1, Janeiro-Fevereiro de 1914.
Correio de Manhã, 11 de Dezembro de 1917.
Diário da Manhã, Lisboa, Quinta-Feira 10 de Maio de 1883.
Diário de Lisboa, 31 de Dezembro de 1934.
Diário de Notícias, Lisboa, 12 de Abril de 1923.
Diário Illustrado, Sábado, 13 de Maio de 1899.
Diário Nacional, 19 de Dezembro de 1917.
Echos do Minho, 1 de Novembro de 1914, 4 de Novembro de 1914.
Gazeta de Lisboa, Lisboa, 24 de Julho de 1829.
O Jornal d’Estarreja, Estarreja, 16 de Junho de 1892, 10 de Fevereiro de 1918, 5 de Junho de 1921.
O Século, 31 de Dezembro de 1934.

Fontes bibliográficas:
Anuário da Nobreza de Portugal, Instituto Português de Heráldica, Tomo II, Vol. III, 1985.
BESSA, José Marcelino de Almeida, Annexo ao Manual Parlamentar para uso dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1905.
FERREIRA, Monsenhor José Augusto, Provedores da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Braga instituída pelo Arcebispo D. Diogo de Sousa (1513?), Academia de Ciências de Lisboa, 1941.
MACHADO, José de Sousa, Últimas Gerações de Entre Douro e Minho, Livro II, Braga, Edição do Autor, 1932.
MACHADO, José Timóteo Montalvão, Dos Pizarros de Espanha aos de Portugal e do Brasil, Lisboa, 1970.
SILVA, Armando Barreiros Malheiro da, DAMÁSIO, Luís Pimenta de Castro, SILVA, Guilherme Rego da, Casas Armoriadas do Concelho dos Arcos de Valdevez, Volume II, Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, 1992.
SOTTOMAYOR, Agostinho de, Hurrah por Torres Vedras!, in Lisboa-Torres Vedras, número único, publicado pela TYpographia Torreense em comemoração da entrada da primeira locomotiva na villa, 30 de Dezembro de 1886.
SOTTOMAYOR, Agostinho de, O Assassínio do Engenheiro Abel Marty em Torres Vedras, in Galeria de Criminosos Célebres em Portugal. História da Criminologia Contemporânea, Volume II, Edição António Palhares, 1897.
SOTTOMAYOR, António Pedro de, Lembranças… História Social e Genealógica da Casa da Fontinha, Lisboa, Edição de Autor, 1994.
SOTTOMAYOR, Dom Duarte Nuno de, Os Sottomayor na História de Portugal, Lisboa, 2000.
SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo X, Coimbra, Atlântida-Livraria Editora, 1953.
TAVARES, José, Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto-Maior no centenário do seu acesso à Câmara de Estarreja, Palestra proferida no Rotary Clube de Estarreja, 1986, Câmara Municipal de Estarreja, 1997.
VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, A Casa Grande da Rua de Sto. António das Travessas, Separata de FORUM, Braga, 12/13, Julho 92/Janeiro93, Arquivo Distrital de Braga.

Internet:
www.centrobraga.com  O fundador do Colégio da Regeneração
www.sis.pt/historia/origens.php?print=sim  História dos serviços de informação e segurança em Portugal


*Este artigo (partes I, II e III) foi publicado em "Terras de Antuã. Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja", Nº 1 - Ano 1 - 2007                                                                                                                                            



[1] No interior da capela, numa campa rasa, pode ler-se o seguinte: AQUI IAS / O DR VICTO / RIANO P RA / DA CRUZ Q / 5 FALECEO / EM O I DE IV / NHO DE / 1768.
[2] Caetano Marques Pereira do Couto foi Beneficiado na Colegiada de Moncorvo, e sacerdote em S. Pedro de Pardilhó. Sucedeu à mãe no Vínculo da Melhor Vista, casa onde faleceu, sendo sepultado na Igreja de Beduído.
[3] Agostinho Marques Pereira do Couto foi bacharel em Direito e sr. da Quinta e Casa da Costeira, em Beduído. Casou com D. Maria Caetana Soares da Silva, de quem teve três filhos. Sucedeu a seu irmão Caetano na Casa da Melhor Vista, onde veio a falecer no ano de 1811. Arquivo Distrital de Braga, Livro 117 dos Prazos do Cabido (1798-1802), fls. 65v.-67. “(…) primeiramente no terreiro de Sto. António desta cidade humas casas grandes com seu quintal que possui o enfiteuta Agostinho Marques Pereira do Couto, sargento mor reformado no regimento de Melícias da cidade de Aveiro, professo na ordem de Cristo, morador na sua quinta da villa de Estarreja, que são dos nºs 12 e 13 (…)”. O Prazo data de 22 de Julho de 1800.
[4] VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, op. cit., fl. 27. “Faleceu em Santiago da Cividade a 24/9/1799, sem testamento”.
[5] SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, op. cit. Bernardo José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 16 de Novembro de 1746. “Bacharel formado em Direito, foi cónego na Sé Primaz por renúncia de seu tio Salvador Marques do Couto, e faleceu em Braga a 8 de Abril de 1820”. Depreende-se pelos registos de baptismo dos seus sobrinhos, que já tinha sido investido no canonicato, pelo menos, desde 1793.
[6] Ibidem. Joaquim José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 26 de Março de 1744. Bacharel em Direito, em 1796 era Desembargador da Relação Eclesiástica de Braga, como consta do registo de baptismo de seu sobrinho Pedro Barbosa do Couto Cunha e Mello (Vide nota 1 em Rostos da Fontinha ( I )). Faleceu na mesma freguesia, a 10 de Janeiro de 1817.
[7] Ibidem. Pedro José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 29 de Abril de 1758. “Bacharel em Direito, foi Desembargador da Relação Eclesiástica de Braga, onde faleceu a 22 de Janeiro de 1807”.
[8] VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, op. cit., fl. 27. Comprou o prazo em 14 de Abril de 1803.
[9] Informações constantes nas notas familiares redigidas por seu bisneto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. “Agostinho Luís Marques do Couto Fontinha e Silva nasceu em Pardilhó a 15 de Fevereiro de 1740 e foi baptizado pelo Cura Padre Manuel de Pinho em20 do mesmo mês e ano, sendo padrinhos o Dr. Agostinho Marques do Couto, Provisor do Arcebispado de Braga, representado pelo Licenciado Victoriano Pereira da Cruz, e Bernarda, solteira, filha do mesmo Licenciado”.
[10] Frei Caetano Brandão nasceu na freguesia de S. João Baptista de Loureiro, antigo concelho de Bemposta, a 11 de Setembro de 1740, filho do Sargento-Mor de Ordenanças Tomé Pacheco da Cunha e de sua mulher Maria Josefa da Cruz, irmã de Victoriano Pereira da Cruz. Religioso franciscano, em 1782 foi nomeado Bispo do Pará (Brasil), e em 28 de Junho de 1790 tomou posse como titular da Arquidiocese de Braga. Ali morreu, a 15 de Novembro de 1805, com sessenta e cinco anos. A sua acção centrou-se na promoção do ensino, e no auxílio aos pobres e necessitados.
[11] Livro de registos de Casamentos da freguesia de Pardilhó. “Em dezasseis de Agosto de 1792, na presença do Padre Luiz Marques do Couto, de minha licença e estando por testemunhas o Padre António Carlos Tavares de Rezende, de Avanca, e o Capitão Francisco Joaquim Tavares de Rezende, de Avanca, sem impedimento, na Capela de S. Francisco de Paula do lugar do Sobreiro da freguezia de Avanca, com licença do respectivo Pároco, se receberam Agostinho Luiz Marques do Couto Fontinha e Silva, filho legítimo de Manuel Marques Fontinha e Silva e de sua mulher D. Maria Marques do Couto, do logar desta freguezia, neto paterno de Luiz Marques Fontinha e de sua mulher D. Maria da Silva, da freguezia de S. Tiago de Beduído, e materno do Capitão Manuel Marques do Couto e de sua mulher D. Maria João e Silva desta mesma freguezia de Pardilhó, com D. Maria Clara Benedita Barboza de Mello, filha legítima do Capitão Francisco Barboza da Cunha e Mello e de D. Arcângela Micaela Josefa do Amaral, da freguezia de S. Cristóvão de Ovar, neta paterna de Francisco Barboza da Cunha e Mello e de sua mulher D. Maria da Cunha de Azevedo, da mesma freguezia, e materna de João Rebelo de Pinho e de sua mulher D. Mariana Nogueira, da freguezia de Salreu e logo lhes deu as bênçãos. a) o Cura António Marques do Couto”.
[12] Luís Manuel Marques do Couto, nasceu em Pardilhó a 26 de Fevereiro de 1754. “Foi presbítero secular e faleceu em Pardilhó a 12 de Maio de 1830”. No registo de baptizado de seu sobrinho José Luís do Couto Cunha e Mello, surge como “Clérigo de S. Pedro (S. Pedro de Pardilhó), e Nossa Senhora da Soledade”.
[13] Vide nota 13 em Rostos da Fontinha ( I ).
[14] O Jornal d’Estarreja, Estarreja, 10 de Fevereiro de 1918. Notícia do óbito de D. Maria Benedicta de Barbosa Sotto-Mayor. “Está de luto e luto bem justificado uma muito distinta família, que é um dos mais legítimos penhores de honra para esta terra, não só pelas suas tradições mas pelo que ainda hoje vale. Extinguiu-se uma das relíquias venerandas dessa família por tantos títulos ilustre e respeitável. Na tarde do dia 1º do corrente faleceu na casa da Fontinha, desta vila, a sra. D. Maria Benedicta de Barbosa Sotto-Mayor, alma de eleição, toda dedicada ao vem, à caridade e à família, que a adorava. A finada que era senhora de altas virtudes e foi sempre para seus sobrinhos uma segunda mãe, modelo de afectos e de carinhos, deixou as maiores saudades não só a seus familiares, mas a todos aqueles que conheciam as suas peregrinas virtudes”.
[15] Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, pode ler-se o seguinte: “D. Maria Filomena Barbosa do Couto Cunha Sottomayor, nasceu na Casa do Lugar em S. Paio de Parada a 22 de Outubro de 1843 e foi baptizada na Igreja Paroquial de Parada a 24 do mesmo mês, sendo padrinhos Joaquim Calixto do Couto Cunha e Mello, por procuração passada a José Maria de Sá Sottomayor, e Nossa Senhora do Amparo. Faleceu solteira, com um cancro, na Casa do Lugar em Parada, a 29 de Setembro de 1864, tendo apenas vinte e um anos. Foi sepultada na Igreja velha de Parada, que hoje já não existe, tendo sido as ossadas ali encontradas quando da construção da Igreja actual, sepultadas no cemitério da freguesia”.
[16] Vide nota 18 em Rostos da Fontinha ( I ).
[17] Resumo da correspondência endereçada do Brasil por José Luís da Cunha, a seu irmão Agostinho Barbosa de Sottomayor, entre 1890 e 1916, constante nas notas familiares redigidas por António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. “Casou em 26 de Novembro de 1868, com D. Ana Victoria da Fonseca, de nacionalidade portuguesa, nascida na freguesia de Aires, concelho de Felgueiras, filha de Guilherme Joaquim da Fonseca, e de sua mulher D. Maria Joaquina da Fonseca”.
[18] Notas familiares redigidas por seu sobrinho-neto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. A tradição familiar indica Mónica de Jesus Maria do Couto Cunha e Mello, como filha natural de Agostinho Luís Marques do Couto Fontinha e Silva. O seu registo de baptismo é claro ao dá-la como exposta na noite de 25 de Abril de 1792, poucos meses antes do casamento do pai. Viveu na Casa da Fontinha, em S. Tiago de Beduído, Estarreja, e foi quem criou e educou os filhos do irmão Pedro Barbosa, que para ali foram viver no período conturbado da guerra civil entre liberais e absolutistas.
[19] TAVARES, José, op. cit. Finaliza o autor a sua palestra relatando um singular episódio ocorrido no dia do funeral de Francisco Barbosa, quando o serrador Manuel Camilo, “vindo do enterro, se encontrou com um amigo, a meio da Costeira; trocando impressões sobre o acontecimento, concluiu-as ele assim: lá ficou o Senhor Francisquinho; – e depois de um pausa – agora, quer um homem tirar o chapéu e já não vê muito a quem”.
[20] BESSA, José Marcelino de Almeida, op. cit., fl. 176. Prestou juramento na Legislatura de 1880-1881, a 14 de Janeiro de 1880; na de 1890 (sessão única), a 15 de Janeiro; na de 1893 (sessão única), a 15 de Maio; na de 1894 (sessão única), a 17 de Outubro; na de 1897-1899, a 30 de Junho de 1897; e na Legislatura de 1900 (sessão única), prestou juramento a 10 de Janeiro, tendo obtido licença para se ausentar do reino na sessão de 28 de Abril.
[21] Anuário da Nobreza de Portugal, Instituto Português de Heráldica, Tomo II, Vol. III, 1985, fl. 725. Maria Cândida de Azevedo Falcão Cota de Bourbon e Menezes, nasceu no palácio do Campo de Santiago, em Braga, a 29 de Agosto de 1850, e faleceu a 20 de Janeiro de 1886; casou em Braga, a 28 de Agosto de 1871, com Francisco Barbosa do Couto Cunha Sottomayor, senhor da casa da Fontinha, em Estarreja. Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, D. Maria Cândida é descrita como “muito bondosa e superiormente inteligente e a única das irmãs que foi sempre equilibrada e sã de espírito (…) Faleceu pouco depois do nascimento de um filho que não vingou”.
[22] Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, lê-se a dado passo o seguinte: “Lembro-me de ouvir contar a meu Tio, além de episódios das lutas liberais e cenas políticas em que tomou parte e que hoje me não recordam, que o seu casamento foi contratado sem conhecer a noiva, que viu pela primeira vez, ou na ocasião do seu casamento, ou poucos dias antes”.
[23] Sucederia no título ao Visconde de Azevedo, Francisco Lopes de Azevedo Velho da Fonseca Pinheiro Pereira de Sá Coelho, tio de sua esposa, a quem legara em testamento, como já vimos, o Solar de Azevedo que agora lhe pertencia. Poucas semanas antes de morrer, por Decreto do Rei D. Luís, datado de 23 de Novembro de 1876, fora aquele titular elevado a 1º Conde de Azevedo.
[24] TAVARES, José, op. cit. Extracto de uma carta enviada por Francisco Barbosa a José Luciano de Castro, a 24 de Abril de 1905. “(…) Em uma carta que Vª. Ex.cia me dirigiu, em 3 de Setembro de 1889, da Figueira da Foz, oferecia-me Vª. Ex.cia a continuação do título de meu falecido Tio, o Senhor Conde de Azevedo; nessa ocasião, agradecendo a Vª. Ex.cia tão subida honra, recusei essa graça porque tendo falecido minha Esposa, que era a representante da antiga Casa de Azevedo, não me julguei com direito a esse título; hoje, porém, que tenho um filho bacharel formado em direito, casado em Vila do Conde com a herdeira de toda a Casa do Barão do Hospital, dotado de boas qualidades e com bens de fortuna para sustentar o lustre desse título e que de futuro é o representante da Casa de seu Tio-Avô, venho pedir a Vª. Ex.cia a concessão do título de Conde de Azevedo para este meu filho. Digne-se, pois, Vª. Ex.cia atender este meu pedido e dar-me a sua resposta. Com toda a estima e consideração (…)”.
[25] Jornal d’Estarreja, 6º Ano, Nº 260, Quinta-Feira 16 de Junho de 1892. “Hoje pelas 4 horas da tarde, nos Paços do concelho, será lavrado e assignado, pela Câmara Municipal, auctoridades e convidados, o auto de lançamento da primeira pedra para o novo edifício dos Paços do concelho, na praça d’esta villa, depois do que se formará o cortejo que tem de dirigir-se ao local destinado para o novo edifício pela forma seguinte: 1º Uma banda de música; 2º Auctoridades Judiciaes, conservador e juízes de Paz; 3º Advogados; 4º Director do correio, chefe da estação e convidados; 5º Parochos e clérigos; 6º Escrivão da Fazenda, Recebedor e empregados; 7º Administrador do concelho e empregados; 8º Presidentes das Juntas de Parochia; 9º Os 40 maiores contribuintes do concelho; 10º Antigos vereadores; 11º A câmara e seus empregados; 12º Uma banda de música. Chegado o cortejo ao local será lido em voz alta pelo secretário da câmara o auto da inauguração e depois de encerrado este com as moedas cunhadas no prezente reinado, em uma urna de ferro para isso destinada, será pelo Presidente da câmara colocada no alicerce do edifício por baixo da soleira da porta principal, e depois de praticadas as solemnidades do estilo recolherá o cortejo pela mesma ordem à casa do tribunal. A sahida e entrada do cortejo e mais solemnidades serão anunciados por girândolas de foguetes. Para que estes festejos sobresaiam pede-se aos habitantes d’esta villa que iluminem as suas casas n’esse dia à noite. Estarreja, 16 de Junho de 1892. TAVARES, José, op. cit. “(…) lançada a primeira pedra em meados de 1892, (Francisco Barbosa) pôde vê-la pronta e em funções na entrada de 1896, completamente mobilada e com a bandeira da Câmara bordada a ouro por duas das suas filhas”.
[26] Francisco de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, nasceu na Casa da Fontinha em Estarreja, a 23 de Julho de 1876. Destinava-se à carreira da marinha de guerra e era Guarda-Marinha quando morreu, tuberculoso, na Póvoa de Varzim, a 16 de Novembro de 1898. Jaz no jazigo de família do Cemitério de Beduído.
[27] Em Paris, no ano de 1826, Joseph Nicéphore Nièpce fez a primeira fotografia, por meio de “câmara escura”, e com uma exposição de oito horas!