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23.11.14

História da Casa da Fontinha ( II ) - Ante-rosto e rosto

Recriação colorida da pedra de armas da Casa da Fontinha.
Lápis de cor e tinta da china, sobre papel "Canson".
Autoria de António Pedro de Sottomayor

"E os homens que não são de bom conhecer, não fazem conta da linhagem que têm, senão de irmãos e primos co-irmãos e segundos e terceiros; e dos quartos acima não fazem conta. Estes tais erram a Deus e a si, pois o que tem parente no quinto ou sexto grau ou dali acima, se é de grande poder, deve servi-lo, porque vem do seu sangue; e se é seu igual deve ajudá-lo; e se é mais pequeno que si, deve-lhe fazer bem, e todos devem ser de um coração."

CONDE D. PEDRO DE BARCELOS
in, “Livro das Linhagens”
Folha de rosto, apresentando as duas únicas imagens conhecidas dos alçados frontal e tardoz da Casa da Fontinha

31.10.14

História da Casa da Fontinha ( I ) - Capa e contracapa da 2ª edição

Futura capa da 2ª edição de "Lembranças... História Social e Genealógica da Casa da Fontinha"
Dos escombros do incêndio da Casa da Fontinha, salvou-se a estatueta de cerâmica que encimava o frontão. Representa a "Esperança", uma das três virtudes teologais. Está hoje em lugar de destaque, ao cimo da escadaria nobre dos Paços do Concelho de Estarreja, um edifício que só existiu devido à vontade de Francisco Barbosa.

Na contracapa, os versículos da Epístola de São Paulo aos Hebreus que sustentam a alegoria
Recordação da capa e contracapa da 1ª edição, de 1994, com os retratos de Pedro Barbosa do Couto e Mariana de Sá Sottomayor


3.10.14

Divagações a propósito de um velho retrato - Rostos da Fontinha( III )

Quase meio século volvido, preparavam-se os tempos para a entrada da nova centúria. Gozavam já o descanso eterno na sua capela da Conceição, Antónia e Victoriano[1], sendo sucessivamente herdeiros, os filhos Caetano[2] e Agostinho[3]. Sabe-se que este último, em 1800, era enfiteuta das casas do Terreiro de Santo António, onde os religiosos da família Marques do Couto sempre tinham vivido, na cidade de Braga. Tinham vivido, e ainda o faziam, uma vez que também o cónego Salvador Marques do Couto, sentindo chegar o dia do Juízo[4], renunciara o seu canonicato da Sé no sobrinho Bernardo[5], filho de sua irmã Maria e do licenciado Manuel Marques Fontinha, “um dos bons letrados do seu tempo”, segundo rezam as crónicas familiares. Por certo, também Salvador conseguira cargos no desembargo eclesiástico dessa Mitra onde era tão conceituado, para Joaquim[6] e Pedro José[7], irmãos do novo Cónego. Desse modo, no dealbar do século XIX, quando o cónego Bernardo Marques do Couto comprou[8] o Prazo das casas de Sto. António ao Cavaleiro de Cristo seu parente, ali viviam há já alguns anos, seus dois irmãos desembargadores, e ele próprio.
Casa da Fontinha, na freguesia de Santiago de Beduído, em Estarreja

Solar da família Barbosa do Couto desde 1867, ano em que coube por herança a Luís Marques Fontinha "o Velho", até meados dos anos 30 do século XX. O corpo da esquerda é mais antigo, sendo a restante obra do século XIX, que veio a ser destruída pelo fogo no ano de 1985
Eram fortes nesse tempo, os laços familiares estabelecidos entre os vários ramos dos Marques do Couto, e entre a família e a Sé de Braga. O irmão mais velho destes eclesiásticos, era afilhado do já falecido Vigário-Geral. Por isso se chamou Agostinho, precedendo o Luís que lhe cabia na alternância genealógica dos primogénitos da Fontinha, entre Manueis e Luíses. Ao tempo do baptizado[9], a que o padrinho não pudera assistir pelos seus múltiplos compromissos, fora aquele representado pelo cunhado Victoriano, futuro tio de D. Frei Caetano Brandão[10], que era nesta transição de século, o Arcebispo em título. O casamento[11] de Agostinho Luís com uma nobre senhora de Ovar, em 1792, não lhe trouxe o desembargo da relação eclesiástica, para que se preparara ao formar-se bacharel em Leis na Universidade de Coimbra. Por isso, não acompanhou a carreira dos irmãos, antes sucedendo na Casa da Fontinha, em S. Tiago de Beduído, que fora de seus pais e avós. Germinou bem a semente daquele casal, fazendo brotar no lugar da Fontinha cinco bravos rapazes, entre Setembro de 1793 e Abril de 1800. A todos, apadrinharam o baptismo os tios de Braga, com excepção do mais novo “que se ficou” pelo tio Luís[12], clérigo na vizinha Pardilhó. Coube por padrinho ao Manuel, o mais velho, o cónego Salvador, representado pelo cónego Bernardo; a Pedro, como já se viu no correr destas linhas, ficou por padrinho o reverendo Desembargador Pedro José, representado por seu irmão Joaquim José, também ilustre titular de cargo semelhante na Relação Eclesiástica de Braga, o qual se investiria de pleno nessa responsabilidade, dois anos mais tarde, perante o pequeno Joaquim Calixto; finalmente, ao Francisco[13], apadrinhou o mesmo Bernardo José Marques do Couto, vindo inclusive em 1820, a renunciar o canonicato da família de que era titular, neste seu sobrinho e afilhado. Tornou-se assim o cónego Francisco, o primeiro dos Barbosa do Couto residentes na Fontinha do Paço, em Estarreja, a trocar aquelas paragens pela vida metropolitana da cidade arcebispal.
Desagrilhoemos Chronus, deixando-o de novo à solta naquele estúdio fotográfico. Oito demorados segundos de imobilidade podem já contar os presentes, Benedicta incluída, ela que puxou a si a educação e o amor aos sete sobrinhitos[14], tão precocemente órfãos de mãe. Guardava no peito um enorme coração, todo devotado à família, e uma bondade sem limites que a sua timidez e abnegação não deixavam transparecer. Seria talvez arredia, diziam, mas só quem de perto a conhecia, podia apreciar toda a sua dimensão humana. Saudades dos ausentes, é o que lhe ia agora na alma. O retrato, não vai nunca ficar completo; falta o Pai, a sofrida Mena[15], e o mano Zé Luís[16] a quem, chorosa, vira partir para o Brasil atingida a maioridade, tinha ela doze anos! Nunca mais estivera com ele, mas as cartas que esporadicamente começavam a chegar desde aquelas remotas paragens, faziam-no casado[17] e com filhos, fazendeiro e grande cultivador de café em Porto de Lameiro, arredores da cidade de Campos, na província do Rio de Janeiro. Falta também a geniosa tia Mónica[18], que cuidara dela e do Francisco quando, de pequenos, tinham ido morar para Estarreja… E o irascível tio Cónego, mas que para ela sempre fora tão afável!... E o simpático tio Calixto, com quem convivera mais de perto pois nunca deixara a Fontinha… A todos Benedicta recorda.
Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior

Baixo, tipo claro e olhos azuis, sendo aparentemente um pouco brusco, tinha um excelente coração e era estimadíssimo por todos os que com ele conviviam. Em 1917, com noventa anos, estava hospedado em casa do irmão Agostinho, quando se deu a revolução que colocou no poder o Dr. Sidónio Pais. Não obstante o perigo que oferecia estar à janela durante o chamado "combate do Rato", meu Tio não queria perder o espectáculo. Lembro-me bem que tendo-lhe eu falado um pouco asperamente para o convencer a meter-se para dentro, levei uma solene descompustura, dizendo que nunca havia tido medo.

(Texto extraído das notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, a quem pertence igualmente a autoria do registo fotográfico, feito precisamente nesse dia)
Cabe finalmente ao “Senhor Francisquinho”, o nono segundo desta arrastada impressão fotográfica. Assim se lhe dirigiam as gentes humildes com quem convivia, e a quem nunca negava ajuda ou atenção, recebendo em troca, gratidão e respeito “de se lhe tirar o chapéu”[19]. Na política, era o líder incontestado dos Progressistas de Estarreja, já tivera honras de Deputado, e decerto voltaria ao Parlamento[20]. Naquela câmara, congratulava-se no convívio com homens da estatura de Guerra Junqueiro, Hintze Ribeiro, Egas Moniz, o Conde de Sabugosa, Luciano Cordeiro, Casal Ribeiro, e até o republicano e futuro chefe do governo, Afonso Costa, entre muitos outros. Mas a intimidade daquele momento de exposição da alma, elevou-a, reconhecido, à sua finada esposa, àquela que desinteressadamente lhe dera a sua vida, o realizara na paternidade, e com quem partilhara quinze anos de muitas alegrias e, inevitavelmente, algumas infelicidades também. A maior destas, sentiu-a na Fontinha, naquele vinte de Janeiro, enquanto ansioso, esperava na sala o entrecortado choro do inocente que deveria nascer para um novo mundo, e se chocou com os rostos fechados, de um silêncio pesaroso, que a medo lhe falavam da inesperada má sorte de Maria Cândida[21].
Hirto, de olhos postos além do vazio, Francisco Barbosa lembra com saudade, as vésperas do dia concertado para o matrimónio. Vivia a família em luto recente pelo “tio Cónego”. Acompanhado de Maria Benedicta e do Agostinho Luís, tomara o trem na estação de Estarreja, percorrendo a metade da viagem que os levou até Gaia. A travessia do Douro fazia-se então apenas de barco, e assim, pela hora do almoço, pisavam os três irmãos, com criados e bagagem, o solo firme da Ribeira, onde logo contrataram a carruagem que os levaria ao destino. Coube ao fiel José - que crescera na Fontinha e com quem brincaram desde crianças –, a tarefa de negociar os serviços do almocreve para o transporte da criadagem e das pesadas malas. Tudo tratado, estômago confortado na medida do possível, enfrentou o grupo, devidamente estratificado, o sinuoso caminho, vencendo os restantes sessenta quilómetros que os separavam de Braga. Caía já a noite, quando desembocaram no Terreiro de Santo António, e José fez soar a aldraba do número 12. Os pais Mariana e Pedro, encabeçavam o saudoso grupo que os esperava, de olhos marejados pela ausência. Saciadas as saudades, logo se acertou a visita ao próximo Campo de Santiago, à casa dos Falcões Cota, onde vivia a noiva escolhida para o primogénito[22]. Então, curioso e inibido – recorda Francisco -, finalmente conheceu Maria Cândida, com quem esperava passar o resto dos seus dias. Concertaram esse enlace, a amizade e as convicções políticas partilhadas entre os Barbosa do Couto (pai e tio), e o Visconde de Azevedo; o bom nome, o carácter e a capacidade gestora do senhor da Fontinha, tornara-o igualmente possível e desejável. Para aquele titular, já velho e sem filhos, Francisco Barbosa era o garante de um digno futuro para a nobre e opulenta Casa que representava. Morreu cinco anos mais tarde, legando em testamento à sobrinha Maria Cândida um vasto património, do qual se destacava a antiquíssima Torre de Azevedo, solar da família há vinte seis gerações!
Pedro de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Sabia o que devia ao seu lugar pessoal e político, mas monárquico conservador convicto, católico, desejava que o país fosse governado pelas suas grandes e tradicionais instituições, e informada a sociedade portuguesa na moral cristã e nos princípios da religião católica.


(Adaptação de um trecho do seu discurso parlamentar enquanto Senador Monárquico pelo Minho, no tempo de Sidónio Pais)

Era especialmente interessado e informado em assuntos de Agricultura e Pescas, dedicando muito do seu tempo à literatura, às artes e ciências, sendo possuidor de vasta biblioteca. Sucessor de seu pai, foi o último dos Barbosa do Couto a herdar o solar da Fontinha, onde nasceu a 8 de Abril de 1875, e o responsável pela sua alienação em consequência do desastre financeiro a que levou a sua opulenta Casa.
Dez segundos… e no ar saturado da pequena sala, dissimula-se já alguma impaciência. Ainda se faz tempo, contudo, para que presente e futuro próximos, ocupem de um tiro, os pensamentos do ex-deputado, tão composto entre suas respeitáveis mãe e irmã. Sua Excelência o Dr. José Luciano de Castro, seu grande amigo e condiscípulo enquanto líder político dos Progressistas, não lhe dera apenas a notícia que tanto alegrara Rita e Henriqueta. “Á voil de l’oiseau”, e antecedendo um texto mais oficial, falara-lhe também na sua possível elevação a Conde[23], que o Partido e ele próprio veriam com muito bons olhos. Surpreso, Francisco Barbosa prometera-lhe resposta. Sinceramente, não se revia nessa posição, pois além de não ser dado a tais “honrarias”, o seu bom senso e sentido de justiça, segredavam-lhe que não lhe cabia por direito, representar o tio da falecida esposa Maria Cândida. Só o desejo de não magoar tão respeitável amigo, fazia oscilar esta vontade. “Foge cão que te fazem barão…”; meio século não apagara os tempos de Saldanha, e sempre actual continuava o motejo! Talvez um dia, Pedro[24] o mereça… Deixá-lo crescer!
Ao hipotético condado, logo se substituiu imponente silhueta: uma Câmara para Estarreja[25]; um imóvel dinamizador, capaz de se tornar próspero marco do progresso que sonha imprimir à sua terra. Um edifício que há-de empregar muitos braços locais, albergando úteis serviços à comunidade, e que será património de todos. E prosseguiriam as suas lucubrações futurísticas, se naquele momento, nesse preciso instante em que assomava o décimo primeiro segundo… não surgisse sob o feltro negro, por detrás do tripé de castanho, o fotógrafo, recompondo a esguia figura:
– Perfeito, ficou esplêndido, e sem repetições! – entusiasmou-se o retratista, logo acrescentando, em respeitosa calmaria – Queiram ficar à vontade. A chapa está pronta!
Então pôde suspirar o grupo, finalmente aliviado. Espirituosa, Mariana gracejou enquanto se erguia, apoiada na mão que Ritinha lhe estendera:
– Daqui a cento e vinte anos ainda estaremos todos juntos nesse cartão! O pior é que então, já ninguém saberá destas relíquias…
Não sabia a vetusta Avó como era sábia… mas quanto se enganava também!
Quando regressaram a casa, receberam-nos, alegres e curiosas, sete crianças irrequietas: Mariana, de quinze anos, e Amália, com nove, lideravam o grupo, elas que viriam anos mais tarde a oferecer ao Pai, bordada a ouro, a bandeira que inaugurou os Paços do Concelho com que aquele sonhava ainda; seguiam-nas a Maria José, de treze anos, e a Bibita, que ainda não fizera os oito, trazendo a mais velha ao colo, a pequena Emília, com quase cinco. Por fim chegaram os rapazes, o Pedro e o Francisco, de doze e onze anos respectivamente, que vinham melados de subir à Figueira mais carregada do jardim, não dispensando um malicioso encontrão, que provocou gritinhos desagradados nas irmãs. Se o primeiro viria um dia a ser o chefe da família, já ao segundo esperava-o vida curta, ceifada precocemente por uma tuberculose fatal[26].

D. Mariana de Jesus Barbosa Falcão de Azevedo Sottomayor e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 7 de Junho de 1872

D. Maria José de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 4 de Janeiro de 1874
Os rostos mais novos da Fontinha, eram também os últimos a nascer naquela Casa, a viver e crescer em Estarreja. Senão vejamos:
Maria José casou a 9 de Novembro de 1893, com José Maria de Abreu Freire, futuro Visconde de Baçar, Bacharel em Direito e senhor da Casa do Outeiro, em Avanca, onde viveram e tiveram quatro filhos.
Mariana casou a 1 de Julho de 1900, na capela do Solar de Azevedo, com seu primo direito Francisco Manuel Pinheiro de Azevedo e Menezes, Engenheiro Civil, senhor das Casas de Vinhal em Famalicão, e dos Pinheiros de Barcelos. Viveram no Porto, onde lhes nasceram oito filhos.
D. Maria Amália Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 25 de Março de 1878
D. Maria Benedicta (Bibita) de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 9 de Agosto de 1879
Amália casou em Estarreja, a 5 de Agosto de 1901, com seu primo direito António de Sá Barreto Pereira do Couto Brandão, Bacharel em Direito e Notário naquela vila, cuja carreira o levou à Magistratura e ao Desembargo da Relação do Porto e de Coimbra. Tiveram apenas uma filha, em 1905, tendo Maria Amália falecido três anos mais tarde, tuberculosa.
Bibita, ou melhor dizendo, Maria Benedicta, casou também em Estarreja, a 21 de Novembro do mesmo ano, com João de Sande Mexia Salema Aires de Campos, então Visconde do Ameal, e futuro Conde do mesmo título, formado em Letras, que viria a abraçar a carreira diplomática, e a tornar-se Deputado da Nação. Sempre viveram na Quinta de Santo António, no Ameal, e em Coimbra, onde lhes nasceu um filho.
D. Maria Emília da Natividade de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon

Nascida na Casa da Fontinha, a 8 de Setembro de 1882

Emília casou a 24 de Julho de 1905, com Augusto Sampaio de Castro Corte-Real – sobrinho de José Luciano de Castro -, Bacharel em Direito e então ilustre Advogado em Lisboa, onde viveram e lhes nasceram duas filhas. Augusto de Castro, que foi Jornalista e Escritor qualificado, ingressou depois na diplomacia, vivendo a família em Londres, Roma, Bruxelas e Paris, só regressando definitivamente a Lisboa em finais dos anos quarenta.
Finalmente o Pedro, futuro 2º Conde de Azevedo, que se formou em Direito na Universidade de Coimbra, e nesse mesmo ano, a 4 de Novembro de 1897, casou na Igreja de Carapeços, com D. Maria da Purificação Briolanja de Queirós e Vasconcelos Carneiro Pereira Coutinho de Vilhena, herdeira da vasta Casa dos Barões do Hospital. Viveram entre Barcelos, Vila do Conde e Monção, nascendo-lhes seis filhos. Rodou inversa a roda da fortuna para o sucessor de Francisco Barbosa, perdendo todo o património que fora dos seus maiores. Viúvo, casou uma segunda vez, e passou ao Ultramar, como Director da Companhia de Moçambique, de onde voltou em 1945.
Depois da morte de Francisco Barbosa, a Casa da Fontinha ficou vazia. Ninguém mais ali parou. Consumiu-a o tempo e o fogo. Do alto dos seus oitenta e um anos, a “velha” Mariana tivera razão na bem humorada glosa. Cento e vinte anos depois, destas gentes de Beduído, sobrou o retrato para contar uma história.
Obrigado Joseph Nièpce[27].


Fontes documentais:
Habilitação para a Ordem de Cristo de Agostinho Marques Pereira do Couto, Letra A, Maço 10, Diligência 6, Torre do Tombo, 1758.
Inquirição de Génere para cónego de Salvador Marques do Couto, 1736.
Prazos do Cabido, Livro 117, Arquivo Distrital de Braga, 1798-1802.
Registos Paroquiais, Pardilhó, Estarreja.
Registos Paroquiais, S. Mamede, Lisboa.
Registos Paroquiais, S. Paio de Parada de Tibães, Braga.
Registos Paroquiais, S. Tiago de Beduído, Estarreja.
Testamento de D. Rita de Cassia Barbosa de Sottomayor.

Fontes manuscritas:
SEQUEIRA, Gustavo de Matos, Notas de família, Manuscrito.
SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, Livro manuscrito de apontamentos genealógicos.
SOTTOMAYOR, António Fernando de Sequeira Barbosa, Notas da família, Manuscrito em vários volumes.

Fontes impressas:
A Nação, Órgão do Partido Legitimista, 1 de Dezembro de 1885, 10 de Dezembro de 1885.
Boletim Salesiano, Vol. VI, Nº 1, Janeiro-Fevereiro de 1914.
Correio de Manhã, 11 de Dezembro de 1917.
Diário da Manhã, Lisboa, Quinta-Feira 10 de Maio de 1883.
Diário de Lisboa, 31 de Dezembro de 1934.
Diário de Notícias, Lisboa, 12 de Abril de 1923.
Diário Illustrado, Sábado, 13 de Maio de 1899.
Diário Nacional, 19 de Dezembro de 1917.
Echos do Minho, 1 de Novembro de 1914, 4 de Novembro de 1914.
Gazeta de Lisboa, Lisboa, 24 de Julho de 1829.
O Jornal d’Estarreja, Estarreja, 16 de Junho de 1892, 10 de Fevereiro de 1918, 5 de Junho de 1921.
O Século, 31 de Dezembro de 1934.

Fontes bibliográficas:
Anuário da Nobreza de Portugal, Instituto Português de Heráldica, Tomo II, Vol. III, 1985.
BESSA, José Marcelino de Almeida, Annexo ao Manual Parlamentar para uso dos Senhores Deputados da Nação Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional, 1905.
FERREIRA, Monsenhor José Augusto, Provedores da Irmandade da Santa Casa da Misericórdia de Braga instituída pelo Arcebispo D. Diogo de Sousa (1513?), Academia de Ciências de Lisboa, 1941.
MACHADO, José de Sousa, Últimas Gerações de Entre Douro e Minho, Livro II, Braga, Edição do Autor, 1932.
MACHADO, José Timóteo Montalvão, Dos Pizarros de Espanha aos de Portugal e do Brasil, Lisboa, 1970.
SILVA, Armando Barreiros Malheiro da, DAMÁSIO, Luís Pimenta de Castro, SILVA, Guilherme Rego da, Casas Armoriadas do Concelho dos Arcos de Valdevez, Volume II, Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, 1992.
SOTTOMAYOR, Agostinho de, Hurrah por Torres Vedras!, in Lisboa-Torres Vedras, número único, publicado pela TYpographia Torreense em comemoração da entrada da primeira locomotiva na villa, 30 de Dezembro de 1886.
SOTTOMAYOR, Agostinho de, O Assassínio do Engenheiro Abel Marty em Torres Vedras, in Galeria de Criminosos Célebres em Portugal. História da Criminologia Contemporânea, Volume II, Edição António Palhares, 1897.
SOTTOMAYOR, António Pedro de, Lembranças… História Social e Genealógica da Casa da Fontinha, Lisboa, Edição de Autor, 1994.
SOTTOMAYOR, Dom Duarte Nuno de, Os Sottomayor na História de Portugal, Lisboa, 2000.
SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo X, Coimbra, Atlântida-Livraria Editora, 1953.
TAVARES, José, Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto-Maior no centenário do seu acesso à Câmara de Estarreja, Palestra proferida no Rotary Clube de Estarreja, 1986, Câmara Municipal de Estarreja, 1997.
VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, A Casa Grande da Rua de Sto. António das Travessas, Separata de FORUM, Braga, 12/13, Julho 92/Janeiro93, Arquivo Distrital de Braga.

Internet:
www.centrobraga.com  O fundador do Colégio da Regeneração
www.sis.pt/historia/origens.php?print=sim  História dos serviços de informação e segurança em Portugal


*Este artigo (partes I, II e III) foi publicado em "Terras de Antuã. Histórias e Memórias do Concelho de Estarreja", Nº 1 - Ano 1 - 2007                                                                                                                                            



[1] No interior da capela, numa campa rasa, pode ler-se o seguinte: AQUI IAS / O DR VICTO / RIANO P RA / DA CRUZ Q / 5 FALECEO / EM O I DE IV / NHO DE / 1768.
[2] Caetano Marques Pereira do Couto foi Beneficiado na Colegiada de Moncorvo, e sacerdote em S. Pedro de Pardilhó. Sucedeu à mãe no Vínculo da Melhor Vista, casa onde faleceu, sendo sepultado na Igreja de Beduído.
[3] Agostinho Marques Pereira do Couto foi bacharel em Direito e sr. da Quinta e Casa da Costeira, em Beduído. Casou com D. Maria Caetana Soares da Silva, de quem teve três filhos. Sucedeu a seu irmão Caetano na Casa da Melhor Vista, onde veio a falecer no ano de 1811. Arquivo Distrital de Braga, Livro 117 dos Prazos do Cabido (1798-1802), fls. 65v.-67. “(…) primeiramente no terreiro de Sto. António desta cidade humas casas grandes com seu quintal que possui o enfiteuta Agostinho Marques Pereira do Couto, sargento mor reformado no regimento de Melícias da cidade de Aveiro, professo na ordem de Cristo, morador na sua quinta da villa de Estarreja, que são dos nºs 12 e 13 (…)”. O Prazo data de 22 de Julho de 1800.
[4] VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, op. cit., fl. 27. “Faleceu em Santiago da Cividade a 24/9/1799, sem testamento”.
[5] SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, op. cit. Bernardo José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 16 de Novembro de 1746. “Bacharel formado em Direito, foi cónego na Sé Primaz por renúncia de seu tio Salvador Marques do Couto, e faleceu em Braga a 8 de Abril de 1820”. Depreende-se pelos registos de baptismo dos seus sobrinhos, que já tinha sido investido no canonicato, pelo menos, desde 1793.
[6] Ibidem. Joaquim José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 26 de Março de 1744. Bacharel em Direito, em 1796 era Desembargador da Relação Eclesiástica de Braga, como consta do registo de baptismo de seu sobrinho Pedro Barbosa do Couto Cunha e Mello (Vide nota 1 em Rostos da Fontinha ( I )). Faleceu na mesma freguesia, a 10 de Janeiro de 1817.
[7] Ibidem. Pedro José Marques do Couto nasceu na freguesia de Pardilhó, Estarreja, a 29 de Abril de 1758. “Bacharel em Direito, foi Desembargador da Relação Eclesiástica de Braga, onde faleceu a 22 de Janeiro de 1807”.
[8] VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, op. cit., fl. 27. Comprou o prazo em 14 de Abril de 1803.
[9] Informações constantes nas notas familiares redigidas por seu bisneto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. “Agostinho Luís Marques do Couto Fontinha e Silva nasceu em Pardilhó a 15 de Fevereiro de 1740 e foi baptizado pelo Cura Padre Manuel de Pinho em20 do mesmo mês e ano, sendo padrinhos o Dr. Agostinho Marques do Couto, Provisor do Arcebispado de Braga, representado pelo Licenciado Victoriano Pereira da Cruz, e Bernarda, solteira, filha do mesmo Licenciado”.
[10] Frei Caetano Brandão nasceu na freguesia de S. João Baptista de Loureiro, antigo concelho de Bemposta, a 11 de Setembro de 1740, filho do Sargento-Mor de Ordenanças Tomé Pacheco da Cunha e de sua mulher Maria Josefa da Cruz, irmã de Victoriano Pereira da Cruz. Religioso franciscano, em 1782 foi nomeado Bispo do Pará (Brasil), e em 28 de Junho de 1790 tomou posse como titular da Arquidiocese de Braga. Ali morreu, a 15 de Novembro de 1805, com sessenta e cinco anos. A sua acção centrou-se na promoção do ensino, e no auxílio aos pobres e necessitados.
[11] Livro de registos de Casamentos da freguesia de Pardilhó. “Em dezasseis de Agosto de 1792, na presença do Padre Luiz Marques do Couto, de minha licença e estando por testemunhas o Padre António Carlos Tavares de Rezende, de Avanca, e o Capitão Francisco Joaquim Tavares de Rezende, de Avanca, sem impedimento, na Capela de S. Francisco de Paula do lugar do Sobreiro da freguezia de Avanca, com licença do respectivo Pároco, se receberam Agostinho Luiz Marques do Couto Fontinha e Silva, filho legítimo de Manuel Marques Fontinha e Silva e de sua mulher D. Maria Marques do Couto, do logar desta freguezia, neto paterno de Luiz Marques Fontinha e de sua mulher D. Maria da Silva, da freguezia de S. Tiago de Beduído, e materno do Capitão Manuel Marques do Couto e de sua mulher D. Maria João e Silva desta mesma freguezia de Pardilhó, com D. Maria Clara Benedita Barboza de Mello, filha legítima do Capitão Francisco Barboza da Cunha e Mello e de D. Arcângela Micaela Josefa do Amaral, da freguezia de S. Cristóvão de Ovar, neta paterna de Francisco Barboza da Cunha e Mello e de sua mulher D. Maria da Cunha de Azevedo, da mesma freguezia, e materna de João Rebelo de Pinho e de sua mulher D. Mariana Nogueira, da freguezia de Salreu e logo lhes deu as bênçãos. a) o Cura António Marques do Couto”.
[12] Luís Manuel Marques do Couto, nasceu em Pardilhó a 26 de Fevereiro de 1754. “Foi presbítero secular e faleceu em Pardilhó a 12 de Maio de 1830”. No registo de baptizado de seu sobrinho José Luís do Couto Cunha e Mello, surge como “Clérigo de S. Pedro (S. Pedro de Pardilhó), e Nossa Senhora da Soledade”.
[13] Vide nota 13 em Rostos da Fontinha ( I ).
[14] O Jornal d’Estarreja, Estarreja, 10 de Fevereiro de 1918. Notícia do óbito de D. Maria Benedicta de Barbosa Sotto-Mayor. “Está de luto e luto bem justificado uma muito distinta família, que é um dos mais legítimos penhores de honra para esta terra, não só pelas suas tradições mas pelo que ainda hoje vale. Extinguiu-se uma das relíquias venerandas dessa família por tantos títulos ilustre e respeitável. Na tarde do dia 1º do corrente faleceu na casa da Fontinha, desta vila, a sra. D. Maria Benedicta de Barbosa Sotto-Mayor, alma de eleição, toda dedicada ao vem, à caridade e à família, que a adorava. A finada que era senhora de altas virtudes e foi sempre para seus sobrinhos uma segunda mãe, modelo de afectos e de carinhos, deixou as maiores saudades não só a seus familiares, mas a todos aqueles que conheciam as suas peregrinas virtudes”.
[15] Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, pode ler-se o seguinte: “D. Maria Filomena Barbosa do Couto Cunha Sottomayor, nasceu na Casa do Lugar em S. Paio de Parada a 22 de Outubro de 1843 e foi baptizada na Igreja Paroquial de Parada a 24 do mesmo mês, sendo padrinhos Joaquim Calixto do Couto Cunha e Mello, por procuração passada a José Maria de Sá Sottomayor, e Nossa Senhora do Amparo. Faleceu solteira, com um cancro, na Casa do Lugar em Parada, a 29 de Setembro de 1864, tendo apenas vinte e um anos. Foi sepultada na Igreja velha de Parada, que hoje já não existe, tendo sido as ossadas ali encontradas quando da construção da Igreja actual, sepultadas no cemitério da freguesia”.
[16] Vide nota 18 em Rostos da Fontinha ( I ).
[17] Resumo da correspondência endereçada do Brasil por José Luís da Cunha, a seu irmão Agostinho Barbosa de Sottomayor, entre 1890 e 1916, constante nas notas familiares redigidas por António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. “Casou em 26 de Novembro de 1868, com D. Ana Victoria da Fonseca, de nacionalidade portuguesa, nascida na freguesia de Aires, concelho de Felgueiras, filha de Guilherme Joaquim da Fonseca, e de sua mulher D. Maria Joaquina da Fonseca”.
[18] Notas familiares redigidas por seu sobrinho-neto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor. A tradição familiar indica Mónica de Jesus Maria do Couto Cunha e Mello, como filha natural de Agostinho Luís Marques do Couto Fontinha e Silva. O seu registo de baptismo é claro ao dá-la como exposta na noite de 25 de Abril de 1792, poucos meses antes do casamento do pai. Viveu na Casa da Fontinha, em S. Tiago de Beduído, Estarreja, e foi quem criou e educou os filhos do irmão Pedro Barbosa, que para ali foram viver no período conturbado da guerra civil entre liberais e absolutistas.
[19] TAVARES, José, op. cit. Finaliza o autor a sua palestra relatando um singular episódio ocorrido no dia do funeral de Francisco Barbosa, quando o serrador Manuel Camilo, “vindo do enterro, se encontrou com um amigo, a meio da Costeira; trocando impressões sobre o acontecimento, concluiu-as ele assim: lá ficou o Senhor Francisquinho; – e depois de um pausa – agora, quer um homem tirar o chapéu e já não vê muito a quem”.
[20] BESSA, José Marcelino de Almeida, op. cit., fl. 176. Prestou juramento na Legislatura de 1880-1881, a 14 de Janeiro de 1880; na de 1890 (sessão única), a 15 de Janeiro; na de 1893 (sessão única), a 15 de Maio; na de 1894 (sessão única), a 17 de Outubro; na de 1897-1899, a 30 de Junho de 1897; e na Legislatura de 1900 (sessão única), prestou juramento a 10 de Janeiro, tendo obtido licença para se ausentar do reino na sessão de 28 de Abril.
[21] Anuário da Nobreza de Portugal, Instituto Português de Heráldica, Tomo II, Vol. III, 1985, fl. 725. Maria Cândida de Azevedo Falcão Cota de Bourbon e Menezes, nasceu no palácio do Campo de Santiago, em Braga, a 29 de Agosto de 1850, e faleceu a 20 de Janeiro de 1886; casou em Braga, a 28 de Agosto de 1871, com Francisco Barbosa do Couto Cunha Sottomayor, senhor da casa da Fontinha, em Estarreja. Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, D. Maria Cândida é descrita como “muito bondosa e superiormente inteligente e a única das irmãs que foi sempre equilibrada e sã de espírito (…) Faleceu pouco depois do nascimento de um filho que não vingou”.
[22] Nas notas familiares redigidas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, lê-se a dado passo o seguinte: “Lembro-me de ouvir contar a meu Tio, além de episódios das lutas liberais e cenas políticas em que tomou parte e que hoje me não recordam, que o seu casamento foi contratado sem conhecer a noiva, que viu pela primeira vez, ou na ocasião do seu casamento, ou poucos dias antes”.
[23] Sucederia no título ao Visconde de Azevedo, Francisco Lopes de Azevedo Velho da Fonseca Pinheiro Pereira de Sá Coelho, tio de sua esposa, a quem legara em testamento, como já vimos, o Solar de Azevedo que agora lhe pertencia. Poucas semanas antes de morrer, por Decreto do Rei D. Luís, datado de 23 de Novembro de 1876, fora aquele titular elevado a 1º Conde de Azevedo.
[24] TAVARES, José, op. cit. Extracto de uma carta enviada por Francisco Barbosa a José Luciano de Castro, a 24 de Abril de 1905. “(…) Em uma carta que Vª. Ex.cia me dirigiu, em 3 de Setembro de 1889, da Figueira da Foz, oferecia-me Vª. Ex.cia a continuação do título de meu falecido Tio, o Senhor Conde de Azevedo; nessa ocasião, agradecendo a Vª. Ex.cia tão subida honra, recusei essa graça porque tendo falecido minha Esposa, que era a representante da antiga Casa de Azevedo, não me julguei com direito a esse título; hoje, porém, que tenho um filho bacharel formado em direito, casado em Vila do Conde com a herdeira de toda a Casa do Barão do Hospital, dotado de boas qualidades e com bens de fortuna para sustentar o lustre desse título e que de futuro é o representante da Casa de seu Tio-Avô, venho pedir a Vª. Ex.cia a concessão do título de Conde de Azevedo para este meu filho. Digne-se, pois, Vª. Ex.cia atender este meu pedido e dar-me a sua resposta. Com toda a estima e consideração (…)”.
[25] Jornal d’Estarreja, 6º Ano, Nº 260, Quinta-Feira 16 de Junho de 1892. “Hoje pelas 4 horas da tarde, nos Paços do concelho, será lavrado e assignado, pela Câmara Municipal, auctoridades e convidados, o auto de lançamento da primeira pedra para o novo edifício dos Paços do concelho, na praça d’esta villa, depois do que se formará o cortejo que tem de dirigir-se ao local destinado para o novo edifício pela forma seguinte: 1º Uma banda de música; 2º Auctoridades Judiciaes, conservador e juízes de Paz; 3º Advogados; 4º Director do correio, chefe da estação e convidados; 5º Parochos e clérigos; 6º Escrivão da Fazenda, Recebedor e empregados; 7º Administrador do concelho e empregados; 8º Presidentes das Juntas de Parochia; 9º Os 40 maiores contribuintes do concelho; 10º Antigos vereadores; 11º A câmara e seus empregados; 12º Uma banda de música. Chegado o cortejo ao local será lido em voz alta pelo secretário da câmara o auto da inauguração e depois de encerrado este com as moedas cunhadas no prezente reinado, em uma urna de ferro para isso destinada, será pelo Presidente da câmara colocada no alicerce do edifício por baixo da soleira da porta principal, e depois de praticadas as solemnidades do estilo recolherá o cortejo pela mesma ordem à casa do tribunal. A sahida e entrada do cortejo e mais solemnidades serão anunciados por girândolas de foguetes. Para que estes festejos sobresaiam pede-se aos habitantes d’esta villa que iluminem as suas casas n’esse dia à noite. Estarreja, 16 de Junho de 1892. TAVARES, José, op. cit. “(…) lançada a primeira pedra em meados de 1892, (Francisco Barbosa) pôde vê-la pronta e em funções na entrada de 1896, completamente mobilada e com a bandeira da Câmara bordada a ouro por duas das suas filhas”.
[26] Francisco de Barbosa Falcão de Azevedo e Bourbon, nasceu na Casa da Fontinha em Estarreja, a 23 de Julho de 1876. Destinava-se à carreira da marinha de guerra e era Guarda-Marinha quando morreu, tuberculoso, na Póvoa de Varzim, a 16 de Novembro de 1898. Jaz no jazigo de família do Cemitério de Beduído.
[27] Em Paris, no ano de 1826, Joseph Nicéphore Nièpce fez a primeira fotografia, por meio de “câmara escura”, e com uma exposição de oito horas!

2.6.14

Divagações a propósito de um velho retrato - Rostos da Fontinha ( I )

Um cartão grosso de trinta por vinte e cinco centímetros, bolorento do já extenso correr dos tempos, serve de base ao meu retrato de eleição. Essa imagem sépia de eras passadas, delicia-me na devolução fiel que sempre me faz, em cada nova mirada, dos rostos nunca tocados ou beijados de tios e avós, centenários já.
A chapa foi impressa, algures entre meados dos anos oitenta ou noventa da centúria de oitocentos. Sei-o, porque a viuvez do negro trajar daquela serena Mãe, espelha a ausência do seu Homem, desequilibrando tão rigoroso retrato de família. Quebra-se a harmonia nessa silhueta inexistente do Avô Pedro, o patriarca ausente, último dos Barbosa da sua geração no solar da Fontinha, gerado nestas terras de Beduído[1], mas finado longe, na terra dos Arcebispos[2], nos idos de 1885, com oitenta e nove anos de robustez e resistência. Sei-o igualmente, pois a inenarrável alegria de viver, a espontaneidade e exuberância que sempre brotaram do espírito da decana Avó Mariana, soçobrariam ao fechar eterno dos seus penetrantes olhos azuis, dez anos mais tarde[3].
O estúdio fotográfico não surge revelado, ou sequer em borrão de carimbo nas margens cartonadas. Estática, a cena pode ter ocorrido em Estarreja, por ocasião das festas a Santiago em Braga, celebrando o aniversário da Avó, ou até mesmo estando a família “a banhos” na Póvoa de Varzim, como era hábito nos meses quentes de verão.
Recomendavam então os mestres do retrato, a pose imutável. Intermináveis segundos asseguravam a exposição à luz e consequente fixação da imagem no brometo de prata. Assim, qualquer movimento, ainda que imperceptível, anularia todo o esforço anterior. Eis revelada, na sua simplicidade técnica, a razão destas expressões sisudas tão características nos retratos de antanho, os olhares fixos, arregalados ou semicerrados, cabeças e braços apoiados, mãos crispadas na busca da naturalidade perdida. A essa dura prova, sem dúvida importante no desempenho da sociedade de fin de siécle, não escapou também a Família Barbosa, de Estarreja, como vimos referindo.
Fotografia de grupo da família Barbosa Sottomayor, datada da última década do século XIX
Imagino a chegada ao exíguo estúdio do fotógrafo, com pompa e circunstância. Duas caleches, uma de um negro luzidio, pequeno coupé de dois lugares, cavalo bege calçado de branco e crina alourada, conduzida pelo velho e fiel cocheiro, da qual se apearam Mariana e seu filho mais velho, Francisco Barbosa, digno e respeitável Presidente da Câmara Municipal de Estarreja[4]. Logo atrás parava outra, previamente alugada para o efeito, estofos de couro marron sobre pintura grená, possante alimária branca calçada de negro, longa crina do mesmo, e condutor a condizer.
Oscilou o conjunto, impulsionado pelo molejo, à descida dos seus quatro ocupantes. Primeiro o “mano” Agostinho, Delegado do Procurador Régio[5], recentemente transferido de Torres Vedras para a 6ª Vara Cível da capital. Educado e solícito, apresentou a mão num célere auxílio à saída da irmã mais velha, a Ritinha[6], diminutivo carinhoso que lhe ficara do tratamento que o pai lhe dedicava. Trajava boas fazendas, moldadas num elegante casaco rosa-velho, bem cintado e drapeado, com aplicações de renda de um negro contrastante; o corpete, bem marcado, rematava numa rígida gola, onde um pregador de ouro sobressaía dos mesmos tons e arrendados. Graciosa no movimento, apesar da longa e complicada saia e da crónica maleita reumática de que padecia, Rita de Cassia agradeceu, levando por instinto a mão livre ao chapéu que a brisa ameaçava. Descia agora, com renovados cuidados na preservação das “anquinhas”, a Benedicta[7], irmã “do meio”, dez reis de gente muito amada, que governava o lar da Fontinha desde o recente falecimento da cunhada, Maria Cândida, de parto mal sucedido. Vestia dons tons de verde entre o tecido azeitona e a renda mais escura, e cobria-se sob um chapéu creme, de sobriedade intocável. Finalmente apeou-se a mais nova do grupo, Henriqueta[8], soerguendo levemente a rodada saia de linho, de padrão enxadrezado de verde água, amarelo limão e branco natural, compondo o modelo num casaco cintado e pregueado. Olhou em redor, ajeitando também a aba do chapéu. Marejou-se-lhe então o doce olhar azul, reflectindo a angústia de uma jovem mãe, que a alguma distância mendigava o pão do dia para o frágil rebento, que já nem chorava, de exaustão! Caritativa, solucionou de pronto a necessidade óbvia nuns trocados, recomendando-lhe que a procurasse mais adiante nesse dia, para que melhor a pudesse ajudar. Reposta a normalidade, o grupo cruzou a ombreira, desaparecendo no interior da loja do fotógrafo.
Vénias e mesuras tão respeitosas quanto subservientes, terão conduzido os Barbosa à sala-estúdio onde um cheiro a cenário clássico aguardava os personagens. Alto, magro e dotado de longas barbas grisalhas, o artista da fotografia contrastava com a baixa estatura e robustez da matéria que se lhe deparava. Algumas correcções se lhe afiguraram evidentes, e desde logo deu início à composição da cena.
Um trio de cadeiras Thonet Nº 14 marcaram o enquadramento. Com a ligeireza possível dos seus oitenta anos já feitos, a Avó Mariana foi a primeira a sentar-se, ocupando o lugar de honra, ao centro. À sua direita, a filha mais velha, Rita de Cassia, tomou depois assento, repousando no colo as mãos sobrepostas segurando um leque, conveniente adereço cedido para a ocasião. Era a mais alta das irmãs, e isso ficou patente quando, em seguida, Maria Henriqueta tomou assento na cadeira ainda vaga. Uma almofada sobre o entrançado de “palhinha” do assento, reajustou o alinhamento das cabeças; a “menina” pôde então descansar o braço direito no regaço, e apoiar a cabeça num delicado equilíbrio dos dedos da mão contrária. Coube então a vez a Maria Benedicta, que também não dispensou o cómodo uso do leque, como forma de encontrar a indicada posição de mãos. Tomou lugar de pé, num plano posterior quiçá reflexivo da reserva que sempre a orientou, e sobre o eixo geográfico da futura chapa, ela, que relembro, era agora o pilar feminino da Fontinha.
Avançaram então os irmãos, surgindo no enquadramento, ambos impecáveis nos contrastes dos ternos de claro linho e escura fazenda, corte muito actual. Honra feita ao primogénito[9], posicionou-se em primeiro lugar Francisco Barbosa, de pé, por detrás da mãe e da Ritinha, a quem deu a direita. Aprumou a figura – que por sinal não primava pelo alongamento, como aliás, todos os frutos gerados daquela cepa oriunda das margens do Antuã – e com firmeza fez esticar o colete, deixando-lhe a bainha bem agarrada entre o indicador e o polegar esquerdos, cabendo ao respectivo anelar, a honrosa tarefa de exibir o “cachucho” plúmbeo, com que lacrava as insígnias[10] dos seus maiores. Quase em simultâneo, no lado oposto da cena, o “benjamim” Agostinho acompanhava também de pé, mas a três quartos, a “caçula” Henriqueta, deixando correr o braço direito ao longo do corpo, enquanto o esquerdo se aninhava à ilharga, com escassa naturalidade. Tudo parecia perfeito, nesta altura, não fora a pouca altura da Benedicta. Urgia resolver esse desconforto da natureza, devolvendo-lhe a média para a posteridade! Uma banqueta de couro, e estava o susto passado; “crescia” a mana, escondia-se o plinto atrás das saias maternas!
Era chegada a hora tão desejada. O longo instante do retrato exigia a mais perfeita quietude. Nem um singelo pestanejar se admitia, e a melhor forma de o controlar era fixar o vazio, concentrar os pensamentos. Refugiou-se o retratista sob o pano negro que cobria a câmara escura, cujo olho ameaçava aquela meia dúzia de singelas almas que, impotentes e abnegadas, o contemplavam não sem algum receio. À chamada de atenção, seguiu-se o abrir do diafragma, iniciando-se a exposição da imagem contida no feixe luminoso que, certeiro, obturava a total ausência de luz.
Francisco Barbosa do Couto Cunha e Mello

Tinha um génio extraordinariamente violento, sendo corrente a frase "sai ao Tio Cónego" quando algum dos meninos da família manifestava mau génio! Era no entanto uma excelente pessoa e muito considerado em Braga.

(Texto extraído das notas familiares redigidas por seu sobrinho-neto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, a quem pertence igualmente a autoria do registo fotográfico original feito sobre um óleo existente no Santuário do Sameiro)
Esgotava-se já o primeiro segundo de imobilidade… Olhar de azul sereno, a anciã recordava o seu Pedro. Aquele jovem cheio de ideais que começara a frequentar a casa, teria ela os seus dezoito anos, trazido pelo saudoso António Bernardo[11], que o conhecera dos tempos de estudante em Coimbra, e pelo amor à causa do Sr. D. Miguel que partilhava com Francisco Bernardo[12] – o “Morgado Triste” – patriarca dos Sá Sotto-Mayor de Braga. Amara-o desde sempre, e ao arrepio do bom senso, movida pela alegria e vivacidade que sempre a caracterizou, aceitara o seu cortejo. Pedro passava temporadas na casa do irmão, o Cónego Francisco Barbosa[13], Presidente do Tribunal Pontifício da Diocese de Braga, o qual fizera já correr os costumados papéis de modo a torna-lo Desembargador da Relação Eclesiástica; ambos se tinham licenciado em Coimbra, na Faculdade de Cânones, e para Pedro, o aguardado despacho chegou no ano de 1827. Contudo, entre Braga e Parada de Tibães, se tornaram mais acesos os encontros amorosos, e nesse mesmo ano – recorda Mariana num misto de angústia e saudade – houve que revelar aos mais próximos a gravidez não esperada do Francisco, o mesmo que agora chefia os destinos de Estarreja!
Corre lento o segundo próximo… À viúva afluem as imagens do secretismo que então se gerou, do primogénito levado para longe, crescendo entre os tios paternos na distante Antuã, e Pedro a tomar posse do seu honroso e rentável cargo, sujeito à injusta lei do celibato, mas não deixando de a visitar, sempre que a oportunidade espreitava. “Triste”, o Morgado fechou os olhos à situação, por muito gostar da filha e do seu quase-genro, e Sua Senhoria, o “genioso” Cónego Barbosa fez valer a sua respeitada opinião. Ainda não haviam passado três anos, e já nascia Rita de Cassia, que cresceu na casa daquele prelado, na Rua de Santo António das Travessas, em Braga. Ali aparecia, de quando em vez, o pai Pedro, saudoso, protegido pelo breu da noite, justificando à filha as longas ausências, com “as lições que tinha de dar aos meninos”![14] Também a guerra civil de 32-34 veio aumentar ainda mais a separação do casal, investindo a família Sá Sotto-Mayor boa parte da sua fortuna no apoio à causa miguelista[15]. A lealdade a D. Miguel valera a Pedro Barbosa, a permissão de uso da Medalha de Ouro da Sua Real Efígie[16], o título de Cavaleiro da Ordem de Nossa Senhora da Conceição, e o rendimento de Fidalgo da Casa Real. A instância dos bons ventos que ainda sopravam na barca legitimista, Pedro acabaria por deixar o Desembargo, para assumir o cargo de Juiz de Fora na vila de Mogadouro[17], em Fevereiro de 1834. Nessa altura – recorda Mariana –, já nascera o José Luís[18] que está hoje do outro lado do oceano, em terras de Campos, no Brasil, razoável “barão” do café.
Pedro Barbosa do Couto Cunha e Mello

Era de estatura regular, magro, olhos azuis e cabelo claro, extraordinariamente robusto e resistente. Aos oitenta e oito anos (contou-me o velho amigo Padre Luís Gomes da Silva, com quem se passou a cena) passeando com um amigo, escorregou, e teve esta frase para o companheiro, recusando a sua ajuda: "Parece-me que vou a querer encorcovar antes do tempo"!

(Texto extraído das notas familiares redigidas por seu neto António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, a quem pertence igualmente a autoria do registo fotográfico feito sobre uma antiga fotografia)
Três segundos se passaram já… A lei do celibato deixara de ser impedimento – conforta-se a Mãe fixando a caixa do fotógrafo –, mas em breves meses, o descalabro de Évora-Monte deitara por terra as suas esperanças. Intransigente miguelista, Pedro Barbosa fora demitido do seu cargo[19], obrigado a fugir dos liberais que o perseguiram – a ele como a tantos outros –, pelas acidentadas veredas e atalhos serranos, a caminho da vizinha Espanha, buscando protecção. E como ele gostava de recordar – já velho – esses tempos de aventura que culminaram na excitante travessia do Douro, numa improvisada jangada, alvo das balas contrárias, frente ao pequeno povoado fronteiriço de Barca d’Alva[20]. Um longo triénio passado “a monte”, algumas vezes escondido em Braga, sob a alçada protectora do irmão, até que o país se acalmasse um pouco mais, e o tão desejado casamento acontecesse, por procuração e dispensado de proclamas, em Gondizalves, na intimidade da capela do morgadio dos Sá Sotto-Mayor[21]. Reuniram-se até que a morte os separasse, no ano de 1839[22], sempre vivendo desde então na Quinta do Lugar de Parada de Tibães. Que orgulho se escapava agora – por entre a imobilidade fotográfica –, da serena expressão de Mariana, revivendo naquele interminável terceiro segundo de espera, a fibra com que os dois enfrentaram as dificuldades, sociais e financeiras, acarretadas pela decisão honrada do fiel legitimista, em não mais exercer cargos públicos[23]. Escoava-se o tempo no eco das palavras dos amigos:
- Homem de um só rosto, de um só parecer, de antes quebrar que torcer![24] Assim era o marido daquela viúva; esse fora o Pai dos Barbosa Sottomayor, da Fontinha.
Suspenso o tempo do retrato, permito-me uma consideração, neste momento tão a contexto. É que se Estarreja algo deve ao seu “quase eterno” Presidente da Câmara – e muitos o aceitarão como um facto –, então ficará a sua história para sempre grata, às dificuldades porque passou a relação deste casal. Se assim o não fora, decerto o pequeno Francisco teria crescido em Braga, junto dos pais, e a estreita relação dos Barbosa da Fontinha com a sua região de origem, terminaria com o óbito de Joaquim Calixto[25], irmão mais novo de Pedro, que sempre ali viveu, servindo o concelho como Juiz ordinário dos Órfãos e da Paz, Presidente da Câmara, Administrador do Concelho, Membro da Junta Geral do Distrito de Aveiro e Tenente-Coronel Comandante do Batalhão Nacional de Estarreja. Facto curioso: era liberal; tal como o primogénito Manuel Bernardo[26], hipotético sucessor na Casa paterna, Bacharel em Direito, que dera a vida pela causa enquanto Capitão da 1ª Companhia de Voluntários de Vila Nova, ferido de morte por uma bala perdida, já os combates na Serra do Pilar se aproximavam do termo! Até o benjamim José Luís[27] seguira aquele partido, deixando mais tarde o convívio dos irmãos, para casar e viver nos Arcos de Valdevez. Acredite-se ou não, mas fazendo fé nas “crónicas” de família, “a diferença de opiniões não obstou nunca à boa amizade que os ligava”[28].          



[1] Pedro Barbosa do Couto Cunha e Mello nasceu na Casa da Fontinha em Estarreja. No livro de registos de Baptizados da freguesia de S. Tiago de Beduído, consta que era “filho do Dr. Agostinho Luiz Marques do Couto e de sua mulher D. Maria Clara Benedita Barbosa de Mello do lugar do Paço desta freguesia, neto paterno do Dr. Manuel Marques Fontinha e de Maria Marques do Couto da freguesia de Pardilhó e materno de Francisco Barbosa da Cunha e de D. Arcangela Josefa Micaela do Amaral, da vila de Ovar. Nasceu a 1 de Abril de 1796 e foi baptisado por mim Domingos Barbosa Ferreira e Albuquerque, leitor e coadjutor desta Igreja. Foram padrinhos o Licenceado Dr. Joaquim José Marques do Couto, Desembargador da Relação de Braga (tio paterno, que assinou por procuração passada pelo irmão Pedro José Marques do Couto, também Desembargador da Relação Eclesiástica de Braga) e o Reverendo Frei Manuel Marques do Couto, de Pardilhó, que tocou pela invocação de Nossa Senhora das Dores, como madrinha, estando presentes, como testemunhas, o Padre Manuel da Costa desta freguesia e António Marques do Couto, de Pardilhó”.
[2] VASCONCELOS, Maria Assunção J. de, A Casa Grande da Rua de Sto. António das Travessas, Separata de FORUM, Braga, 12/13, Julho 92/Janeiro 93, Arquivo Distrital de Braga, fl. 28. Faleceu nesta sua Casa a 1 de Dezembro de 1885, teve “pomposos ofícios” de corpo presente na Igreja do Seminário no dia 3, e foi sepultado no jazigo de família no Cemitério do Monte d’Arcos, em Braga.
[3] Ibidem. Mariana Cândida de Sá Sotto-maior faleceu na mesma Casa, onde viveu após a morte do marido, em 27 de Fevereiro de 1895. Jaz sepultada ao pé do marido, com a indicação de ter nascido a 12 de Outubro de 1806.
[4] O Jornal d’Estarreja, Estarreja, Ano XXXV, Nº 1747, 5 de Junho de 1921. Na notícia relativa ao óbito de Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto Maior, pode ler-se que foi Presidente daquela edilidade “de 1886 a 1892, de 1896 a 1898, e ainda noutros triénios até 1917”. Nas notas da família escritas por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, que com ele privou, especifica o autor que seu tio abandonou a política em 1910 com a queda da monarquia, “se bem que ainda ocupasse a Presidência da Câmara em 1917, já com 90 anos, no curto período da situação do Dr. Sidónio Pais”.
[5] Diário de Notícias, Lisboa, 12 de Abril de 1923. Noticiando o falecimento de Agostinho Luís Barbosa do Couto Cunha Sottomayor, refere-se que nascera em S. Paio de Parada de Tibães, a 20 de Outubro de 1845, e que “foi nomeado delegado do Procurador Régio para Ponta Delgada em 1881, donde mais tarde foi transferido para Porto de Mós e depois para Torres Vedras, comarca em que exerceu de tal forma as funções do seu cargo, principalmente pelos serviços inteligentes no processo do assassínio do engenheiro francês Abel Marty, que lhe valeu ser colocado, por distinção, em 1886 (Auto de posse em 13 de Dezembro de 1886), na 6ª vara cível de Lisboa”.
[6] Rita de Cassia Barbosa do Couto Cunha Sotto-Mayor nasceu em Braga, a 22 de Maio de 1830, data que consta no registo do jazigo de família do Cemitério do Monte d’Arcos, onde foi sepultada depois do óbito, ocorrido a 11 de Março de 1899.
[7] O Jornal d’Estarreja, Estarreja, 10 de Fevereiro de 1918. No texto que noticia a sua morte pode ler-se que Maria Benedicta Barbosa do Couto Cunha Sottomayor “nasceu na Casa do Lugar de S. Paio de Parada de Tibães, Braga, a 27 de Agosto de 1839”.
[8] Maria Henriqueta Barbosa do Couto Cunha Sottomayor nasceu na Casa do Lugar de S. Paio de Parada de Tibães, Braga, a 3 de Maio de 1847, data que consta no registo do jazigo de família do Cemitério do Monte d’Arcos, onde foi sepultada depois do óbito, ocorrido a 31 de Outubro de 1914.
[9] O Jornal d’Estarreja, Estarreja, Ano XXXV, Nº 1747, 5 de Junho de 1921. A notícia do seu óbito informa que “nasceu em Braga em 26 de Dezembro de 1827”. São igualmente esses, os dados constantes noutros excertos informativos da época, e nos vários manuscritos genealógicos pertencentes à família. A data de 20 de Dezembro, avançada em TAVARES, José, Francisco Barbosa do Couto Cunha Sotto-Maior no centenário do seu acesso à Presidência da Câmara de Estarreja, Palestra proferida no Rotary Clube de Estarreja em 1986, Câmara Municipal de Estarreja, 1997, parece ser erro, seja de interpretação ou gralha de impressão.
[10] A pedra de armas da Casa da Fontinha, depois do incêndio que em 1985 destruiu o solar, encontra-se actualmente no logradouro da antiga Casa dos Morgados de Santo António da Praça, hoje Casa da Cultura de Estarreja, frente ao edifício dos Paços do Concelho que Francisco Barbosa mandou edificar. Esculpido em meados do século XIX o brasão esquartelado, apresenta no I quartel as armas de Barbosa (dos Capitães de Ovar), no II de Melo (do Morgadio da Torre de Sampaio em Mouçós, Vila Real), no III as armas modernas dos Cunha, senhores de Tábua (do Morgadio da Quinta do Mato em Salreu), e no IV as dos Couto (dos Marques do Couto, de Pardilhó), tendo por timbre o leão dos Barbosa, sainte do elmo, carregando na espádua um crescente invertido, peça que não é referida por Braamcamp Freire na sua “Armaria Portuguesa”, nem no “Armorial Lusitano” de Martins Zuquete ou no “Armorial Portuguez” de Santos Ferreira, mas que aparece assim descrita na “Pedatura Lusitana” de Alão de Morais.
[11] MACHADO, José de Sousa, Últimas Gerações de Entre Douro e Minho, Livro II, Braga, Edição do Autor, 1932, fls. 358-359, MACHADO, José Timóteo Montalvão, Dos Pizarros de Espanha aos de Portugal e Brasil, Lisboa, 1970, fls. 401-402. António Caetano de Sá Sotto-Mayor era o nome de baptismo, mas a família tratava-o por António Bernardo. Irmão mais velho de Mariana, nasceu em Braga, na casa de seus pais, ao Campo da Vinha, em 6 de Abril de 1799. Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, foi Juiz de Fora em Caminha, e sucedeu em toda a Casa paterna com excepção da Quinta do Lugar de S. Paio de Parada de Tibães, que coube por testamento, a sua irmã Mariana. Era convicto partidário da causa absolutista, tal como toda a família, e por ela se bateu enquanto Tenente de Voluntários Realistas, sendo ferido em combate no ano de 1833. Faleceu em Braga, a 3 de Maio de 1867.
[12] MACHADO, José de Sousa, op. cit., MACHADO, J. T. Montalvão, op. cit., SOTTOMAYOR, Dom Duarte Nuno de, Os Sottomayor na História de Portugal, Lisboa, 2000, fls. 126-127. Francisco Bernardo de Sá Sotto-Mayor, também conhecido pela alcunha de “Morgado Triste” (Montalvão Machado erra ao atribui-la ao filho António Bernardo), nasceu na Casa do Campo da Vinha, em Braga, a 21 de Julho de 1774. Como tenente de Cavalaria em Olivença, participou na “Guerra das Laranjas”, com especial relevo no cerco de Campo Maior, em 1801, e durante as Invasões Francesas disciplinou e comandou as ordenanças do Couto de Tibães, em Braga. Na sua cidade exerceu, entre outros, os cargos de Almotacê, Vereador e de Juiz de Fora e do Crime, tendo sido durante doze dias do mês de Fevereiro de 1827, a única autoridade a governar a cidade. Morreu aos 77 anos, em Parada de Tibães, a 8 de Janeiro de 1852.
[13] No livro de registo de baptismos da freguesia de S. Tiago de Beduído, Estarreja, consta o registo do nascimento de Francisco Barbosa do Couto Cunha e Mello, a 4 de Fevereiro de 1795. SOTTOMAYOR, Agostinho barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, Livro manuscrito de apontamentos genealógicos. Neste nobiliário familiar, existente em 1925 na biblioteca do Conde de Azevedo, e copiado nesse mesmo ano por seu sobrinho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor, pode ler-se que “foi Cónego da Sé Primaz, por renúncia de seu tio Bernardo José Marques do Couto, Cavaleiro da Conceição e Desembargador do Tribunal da Relação Pontifícia de Braga. Faleceu em Braga a 12 de Maio de 1871. Jaz em uma das catacumbas do Cemitério Público daquela cidade. (Em nota: Foi removida a sua ossada por seu sobrinho Francisco Barbosa para um dos gavetões do Jazigo de família que mandou construir no mesmo cemitério). António Fernando acrescenta ainda nas suas notas, que o Tio tomou posse do canonicato a 15 de Abril de 1820, foi despachado Cavaleiro de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, com tratamento de Senhoria, a 18 de Maio de 1823, e foi também Presidente do Tribunal Pontifício da Diocese Bracarense.
[14] Informação fornecida por Belmira de Matos Sequeira, cunhada de Rita de Cassia, e recolhida por seu filho António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor.
[15] SOTTOMAYOR, Dom Duarte Nuno, op. cit.
[16] Gazeta de Lisboa, 24 de Julho de 1829. “Em 8 do corrente mês de Julho foi El Rei Nosso Senhor servido permitir o uso da Medalha de ouro da Sua Real Efígie a Pedro Barbosa Marques do Couto, Desembargador da Relação Metropolitana de Braga”.
[17] MACHADO, José de Sousa, op. cit., fl. 363, SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de, SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, op. cit.
[18] Num apontamento genealógico redigido pelo próprio José Luís e enviado do Brasil para seu irmão Agostinho Barbosa de Sottomayor, pode ler-se o seguinte: “Eu Jozé Luiz da Cunha e minha família. Nasci em 1º d’Abril de 1833 (Braga). Vim para o Brazil em 26 de Outubro de 1851 a onde cheguei em 12 de Dezembro do mesmo ano”. 
[19] A Nação, Órgão do Partido Legitimista, 1 de Dezembro de 1885. “Quando o Rey Martyr desceu no throno impelido pela força de um conjunto de circunstâncias desgraçadas, sendo das maiores as intrigas, traições e a acção combinada da maçonaria europêa, o integérrimo Magistrado despiu a toga impoluta, ficando em pouco lisonjeiras circunstâncias de fortuna”.
[20] Vide nota 14.
[21] Livro de registo de Casamentos da freguesia de S. Paio de Parada, 1722 a 1863, fl. 71. “Pedro Barbosa Marques do Couto, filho legítimo de Agostinho Marques do Couto e de D. Maria Clara da Cunha e Mello, da Freguesia de S. Tiago de Beduído, Bispado do Porto, Concelho de Estarreja, e D. Mariana Cândida de Sá Sottomayor, filha legítima de Francisco Bernardo de Sá Sottomayor e de sua mulher D. Josefa Severina Soares de Lanções, desta Freguesia de S. Paio de Parada, Couto de Tibães, se receberam hum com o outro na Capela de Nossa Senhora da Esperança, recebendo-a José Luiz Barbosa da Cunha Couto e Mello, irmão do contraente, por procuração bastante que me apresentou, isto sem impedimento algum, assistindo-lhe o Reverendo José António de Castro, Abade de São Martinho de Bruffe com minha licença e estando eu também presente isto aos quatro dias do mez de Outubro do anno de mil oitocentos e trinta e sete estando presentes por testemunhas o Rev.o P.e Frei Joaquim de S. Plácido, Monge de S. Bento e Domingos, solteiro, filho de João do logar da Esperança, Freguesia de Santo André de Gondizalves, na qual Freguezia existe a Capela da Senhora da Esperança, na conformidade do Sagrado Concílio Tridentino e determinações deste Arcebispado e para constar fiz este termo com consentimento do Rev.o Pároco que assigna. Era ut supra. Abade José António de Castro: - O Pároco José Xavier Duarte: - O P.e Frei Joaquim José Máximo de S. Plácido, Monge de S. Bento: - Declaro mais que estes contraentes tiveram dispensa de proclamos que seu theor é o seguinte: Dispenso os proclamos e o Rev.o Pároco da contrahenda assista ao Matrimónio na forma requerida: Braga 1 de Outubro de 1837. Tesoureiro-Mor Vigário Capitular e não continha mais a dita Portaria. Era ut supra: - O Pároco José Xavier Duarte.
[22] Livro de Contas da freguesia de S. Paio de Parada, 1816-1842. “Ano de 1839 – Recebi da entrada de Pedro Barbosa, João Gomes e Maria Teresa (…) 0.400”. Esta entrada era registada sempre que alguém de fora se estabelecia definitivamente numa freguesia, pagando certa quantia ao Pároco da mesma.
[23] A Nação, órgão do Partido Legitimista, 10 de Dezembro de 1885. No elogio fúnebre traçado por aquele jornal, de que era um dos mais antigos assinantes, lê-se a dado passo o seguinte: “Havendo-se dedicado à carreira da magistratura que ilustrou pelo seu espírito de exemplar rectidão, recolheu-se à vida particular, depois da catástrofe de 1834, e nunca solicitou nem quis exercer qualquer cargo público. Se porém, assim, mostrou sempre a sua nobre abnegação, jamais se recusou a prestar à sua causa os mais claros testemunhos da sua dedicação”.
[24] A Nação, 1 de Dezembro de 1885.
[25] SOTTOMAYOR, Agostinho Barbosa de , SOTTOMAYOR, Francisco Barbosa de, op. cit. Neste manuscrito familiar, diz-se que Joaquim Calixto do Couto Cunha e Mello nasceu na freguesia de Beduído a 14 de Outubro de 1797, e faleceu em Estarreja, a 8 de Junho de 1870. “Jaz sepultado na Capela de Nossa Senhora das Dores de Beduído. (Em nota: Em 1889 jazem os seus restos mortais na capela que seu sobrinho Francisco Barbosa mandou construir no Cemitério de Beduído).
[26] Ibidem. Manuel Bernardo do Couto Cunha e Mello nasceu em Estarreja a 26 de Setembro de 1793 e faleceu no Porto, a 1 de Outubro de 1832. Jaz sepultado na Igreja dos Clérigos, sepultura nº 53.
[27] Ibidem. José Luís do Couto Cunha e Mello nasceu em Beduído, na Casa da Fontinha, a 2 de Abril de 1800. Casou nos Arcos de Valdevez a 2 de Fevereiro de 1843, com D. Maria do Patrocínio de Azevedo Cardoso, filha do Dr. Luís António de Araújo Amorim e Azevedo, Sr. da Casa da Ponte naquela vila, Bacharel em Direito, Desembargador e Corregedor da 2ª Vara Cível da Relação do Porto, e de sua mulher D. Catarina Carolina Cardoso de Mendonça Lacerda. Tiveram geração na vila dos Arcos, onde viveram como opulentos proprietários. José Luís faleceu em 25 de Maio de 1872, e jaz no cemitério daquela vila. SILVA, Armando Barreiros Malheiro da, DAMÁSIO, Luís Pimenta de Castro, SILVA, Guilherme Rego da, Casas armoriadas do Concelho dos Arcos de Valdevez, Volume II, Câmara Municipal dos Arcos de Valdevez, 1992, fls. 75-81.
[28] Texto extraído das notas familiares redigidas por António Fernando de Sequeira Barbosa Sottomayor.